segunda-feira, 12 de junho de 2017

Conto Dia dos Namorados

Bom dia a todos vocês queridos amigos leitores.
Divirtam-se neste dia tão especial que comemora o Dia dos Namorados. Disponibilizo aqui na página conto sobre o tema, para quem ainda não leu na edição de junho da revista.
Grande abraço,
Míriam

            Noite de sábado, verão de 24 de março de 1979, e a moçada do bairro se aprontando para os famosos bailinhos do Nelson, o cara mais conhecido da Vila Moraes, em São Paulo, por seu repertório que agradava a todos os gostos e pelo imenso espaço do salão, ao fundo de sua casa.
Música agitada, luzes piscando, bebida a vontade e a rapaziada dançando muito. As minhas amigas estavam lá se divertindo ao som de Donna Summer, e não notaram quando cheguei. Procurei um lugar bem longe de onde dançavam apenas para ficar observando; queria ficar imperceptível, e quase o consegui!
Após uma pausa rápida, a música prosseguiu com uma sequência romântica e os casais se divertiam dançando de rostinhos colados.
Meu coração bateu mais forte quando começou a tocar Kenny Rogers, que tanto adoro. Há, e quase saiu pela boca quando o vi entrar no salão; um príncipe! Ele não era alto, tinha os cabelos negros e curtos e uma fisionomia séria. Ele pegou uma bebida e ficou olhando os casais dançando. Tudo parecia tranquilo quando os olhos dele se encontraram aos meus. Tentei desviar, mas como um ímã, fui atraída por aquele olhar!
Ele deixou o copo e lentamente caminhou até onde eu estava.
— Você quer dançar? — perguntou ele estendendo-me a mão.
— Sim. — respondi, combatendo minha timidez.
E assim fomos para a pista de dança.
O desconhecido passou a mão por minha cintura e me abraçou. Trêmula, coloquei as mãos no pescoço dele e nos entregamos à música.
Há, meu querido diário, me senti nas nuvens, e não via mais ninguém ali, apenas o “meu príncipe encantado”, que me olhava com um sorriso maravilhoso, aqueles lábios carnudos e sedutores! Fechei os olhos e me senti flutuar! Ele me envolveu sensualmente ao ritmo lento da melodia. O meu coração bateu tão forte que até me faltou o ar. Foi especial, pois, como sabes, eu nunca estive tão perto de um rapaz!
O incrível é que permanecemos juntos entre sorrisos, danças e conversas, até o baile terminar. E de mãos dadas ele me trouxe a casa! Foram momentos inexplicáveis, e mais ainda por meu pai me permitir sair.
Fim, diário.
...
Tímidos e atraídos um pelo outro, não falavam nada, apenas sentiam o frescor da noite quente. E aproveitaram cada minuto da caminhada até a casa de Flávia, momentos românticos que pareceu sem fim. Ao se despedir, ela abriu o portão e entrou. O jovem,  acenou e partiu.
Arthur, depois de andar alguns metros, não teve coragem de prosseguir, e virou-se, vendo Flávia, que agora estava junto ao portão admirando os passos dele.
Os olhares se entrelaçaram mais uma vez. Arthur tomou a iniciativa e retornou ao portão da casa. Os dois se abraçaram. Arthur virou o rosto de Flávia e a beijou loucamente, sentindo os lábios da jovem entre os seus. Enamorados, marcaram um encontro para a noite seguinte.
Sem conseguir dormir, Flávia aflorou para o amor em seus 16 anos.
O pai era um homem ríspido que parecia nunca ter sido tocado pelo amor. Casara-se com a sua mãe, pelo o que ela sempre soube, foi tudo muito rápido e básico, sem romance, sem muito sentimento, por isso, o pai não entendia nada do amor, apenas queria que a filha se dedicasse aos estudos.
À noite, Flávia inventara trabalho escolar para poder sair e encontrar com seu amado, pois sabia que o pai não aprovaria o namoro.
Então a moça vestiu-se discretamente, pegou alguns livros e partiu. E assim, entre trabalhos escolares e outras desculpas, o namoro e o amor foi crescendo entre ambos. Arthur em seus 18 anos trabalhava e estudava à noite.
E entre desculpas e mentiras, os jovens mantinham em segredo o romance.
Uma noite, quando estavam abraçados e entrando na lanchonete que costumavam frequentar, foram descobertos pelo pai de Flávia, e tudo mudou desde então.
Proibida de sair de casa sozinha, a rotina de Flávia seria de casa para a escola e nada mais. A mãe teria de vigiar seus passos, essa era a ordem do pai, que a mãe não questionou e passou a cumprir.
E assim a tristeza foi se instalando no coração da jovem. Arthur estudava à noite para poder trabalhar e Flávia estudava de manhã. Em escolas distantes, os namorados estavam completamente privados de qualquer contato.
Certa noite Arthur depois de rondar a casa de Flávia, se aventura em sua janela do quarto. Ela foi surpreendida pela ousadia e cheia de saudade o ajuda a entrar.
Entre beijos e abraços, o amor fluiu naquela noite de maneira intensa e na mais pura explosão da paixão, do frenesi de sussurros e deleite até o raiar do dia.   
Momentos esses que a moça registrou em seu diário, seu único companheiro e amigo fiel de seus segredos, caderninho de anotações que ficava trancado e escondido, acobertando os sentimentos mais profundos da adolescente.
E os encontros noturnos no quarto de Flávia seguiam-se com frequência e cautela por dois meses, até que ambos resolveram partir. Arthur enviara pelo correio currículo para uma vaga de emprego bem distante da capital paulista, em Natal.
E a resposta foi positiva.
E os dois então armaram um plano. Flávia levaria em sua mochila algumas peças de roupas, agiria normalmente como se fosse para a escola, mas partiriam para a estação de metrô combinada.
...
A moça aguardava há duas horas e nada do jovem aparecer. Desesperada, andava de um lado para outro, o que chamou a atenção de funcionários do metrô. Aos prantos, pois agora se passando quatro horas, Flávia não sabia o que fazer.
Será que ele mudou de ideia? Pensava. Desistiu? Não compreendo, foi ele quem sugeriu a fuga, meu Deus, deve ter acontecido alguma coisa. Chorava Flávia, que tremia da cabeça aos pés.
Ao vê-la neste estado, chamaram a polícia. Relutando os policiais levaram Flávia, que chorava compulsivamente. Ela não compreendia a situação e, tão pouco ficou sabendo, que a poucos metros da estação, um jovem fora atropelado por um carro. Levaram-no para o hospital, mas ele não resistiu.
E Flávia foi para casa a força. Ao saberem do plano, decepcionados, os pais agiram com mais rispidez ainda e Flávia não mais pode sair de casa sem a presença da mãe. Incompreendida, sem saber do paradeiro de Arthur, Flávia entra em depressão.
Tomando remédios fortes e sem ânimo para a vida, a adolescente piora seu estado de saúde. Definhando a cada dia, ela foi internada, mas acabou se entregando à doença.
O enterro de Flávia foi simples, com parentes e poucos amigos.
A mãe não foi, desconsolada e com o diário da filha nas mãos, as lágrimas corriam-lhes dos olhos, marcando para sempre o Dia dos Namorados, data que para ela nunca tivera significado, mas agora seria motivo de lembrança. Ele compreendeu o que era “morrer por amor”.
...
Mas, queridos leitores, como sou uma pessoa que acredito no amor, seja ele deste plano ou de qualquer outro, creio que quando se ama alguém de verdade, nada poderá os separar, então...

Após Flávia ser enterrada, ao cair a noite, a moça foi despertada por um beijo e abrindo os olhos, viu Arthur sorridente, estendendo-lhe os braços.
De mãos dadas os amantes caminharam sem pressa e saíram do cemitério, pois agora tinham todo o tempo do mundo para se amar.

Feliz Dia dos Namorados a todos os que deixam o amor fluir em seus corações! 

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