domingo, 30 de abril de 2017

Conto Hotel Villa Azalee

Bom dia a todos vocês queridos leitores, desejo um ótimo domingo.

Disponibilizo aqui na página o conto Hotel Villa Azalee, que faz parte da Revista Conexão Literatura do mês de abril.

Espero que gostem. Abraços, Míriam.

Conto Hotel Villa Azalee
            Frederico se despediu da esposa, que ficou no Brasil. Depois de se acomodar no Palazzo Vecchio Hotel, em Florença, Itália, foi conhecer a cidade e tentar relaxar em meio a tanta gente que ia e vinha, idiomas se misturavam às tonalidades de cores das roupas e cabelos, de crespo a liso, de claro a escuro. Baixos, altos, jovens, pessoas caminhavam em busca de sonhos diversos, ou de empregos, não importa cada qual com sua história e seu momento no aqui e agora. E as cenas tristes foi a grande quantidade de pedintes que tentam sobreviver numa cidade que exige boas condições financeiras.
O relógio marcava 4 da tarde quando Frederico começou a caminhar seguindo o GPS do celular. O hotel onde encontraria Paulo Ricardo ficava a poucas quadras da estação ferroviária e ao chegar ao local indicado Frederico se depara com um estabelecimento fechado, aliás, sem funcionamento há anos. Atravessou e ficou observando do outro lado da rua. Era uma casa muito grande com portas e janelas fechadas, a parede gasta pelo tempo e uma imensa árvore ao lado da placa: Hotel Villa Azalee, o que indicava ser o lugar certo. Frederico, então, atravessou novamente a rua e bateu na porta, já que não viu nenhuma campainha. Quando se afastava escuta passos e o portão se abre. Um senhor de pele clara, cabelos e olhos castanhos aparentando uns 50 e poucos anos o convida a entrar.
- Estávamos a sua espera, diz o homem, que se apresentou como Andrea Romano. – Entre, por favor.
Entrei e ele fechou o portão, era um ferrolho antigo e a chave enorme antiga também, que foi pendurada à cintura, presa ao cinto, vestimenta do século XX. Seguimos e entramos pela cozinha e notei a composição de azulejos e cores fortes de geladeiras e fogões que remetiam a década de 70.
- Onde está Paulo Ricardo? – Perguntei ao senhor que não me respondeu apenas andava na frente e me guiou à escadaria, pois o hotel não tinha elevador e subimos dois lances de escadas. Seguimos por um corredor com quadros antigos e mobílias exalando mofo.
Empurrei o homem contra a parede e gritei por meu amigo e ele me disse que já estávamos chegando ao quarto. A situação me deixara tenso, já que em seus e-mails Paulo Ricardo dissera que era gerente de um pequeno hotel e nada havia naquele lugar, apenas teias de aranhas, silêncio e solidão. Mesmo apreensivo com a situação continuei seguindo o homem. Ao abrir a porta de um dos quartos vi alguém deitado. Entrei e a porta logo se fechou. Paulo Ricardo quando me viu acenou.
- Você veio! – Disse Paulo Ricardo sem se levantar. Ao lado da cama estava aceso um abajur cor de vinho e logo fui acendendo as luzes e abrindo a janela para clarear o quarto e deixá-lo com um odor mais agradável.
- Mas o que você realmente faz aqui? Me disse que trabalhava como gerente e o que significa isso? Não compreendo. E meu amigo parecia fraco, com o rosto magro e pálido. Você não me parece nada bem, afinal, o que faz nesta espelunca, questionei já sem paciência de ouvir ladainha inútil.
- Vivemos aqui de nossas lembranças Frederico, essa é a verdade, disse ele.
- O quê? – Que palhaçada é essa? – Não me venha com bobagem. Não quero magoá-lo, mas você é homossexual e está vivendo com este homem?
- Não é nada disso, nos alimentamos de nosso passado e recordações dos momentos mais importantes de nossas vidas e você é como um irmão, por isso, eu o chamei...
Sem paciência o fiz levantar da cama. Ao colocar Paulo Ricardo em pé vi a magreza em que se encontrava.
- Vamos embora, vou levá-lo agora mesmo. 
- Não posso ir embora, só queria vê-lo mais uma vez antes de partir.
- O quê, pare e reaja como homem!
- Eu nunca tive nada, depois que meus pais morreram todos os meus amigos conseguiram seguir suas vidas e eu não, pois tudo ficou difícil para mim e cada um foi se desvencilhando e me deixando de lado. Eu sou um bosta, nunca consegui emprego decente, as garotas não se interessam por mim...
- Pare. Não fale mais nada, pegue suas coisas e vamos embora, vim até aqui visitá-lo e ao vê-lo neste estado lastimável eu vou é levá-lo.
E ao abrir o guarda-roupa Paulo Ricardo tentou me impedir e lhe dei um safanão jogando-o na cama. – Se nos consideramos irmãos, faça o que estou mandando, você não está em condições de permanecer nem mais um dia aqui. De repente, o tranquilo dono do hotel entra enfurecido.  
- Ele não pode ir embora, grita o homem tentando me afugentar. E quando ele vem para cima de mim, lhe dou um soco na cara, que não faz efeito algum.  
Começamos a brigar e Paulo Ricardo pedindo para que eu parasse. Parti para o homem com muita fúria com uma cadeira nas mãos e quebrei-a com toda a minha força na cabeça dele, fazendo com que caísse ao chão ensanguentado.
- Rápido, vamos embora. Peguei algumas coisas e documentos joguei-os numa mochila e Paulo Ricardo pelo braço e depois de uma bofetada para acabar com o histerismo dele, o joguei para fora do quarto fechando a porta do recinto.
- Vamos rápido antes que o imbecil acorde.
E com pressa e amparando Paulo Ricardo pela cintura, conseguimos descer as escadas. Lá embaixo, me lembrei da chave e subi novamente correndo e antes de entrar no quarto peguei um pau para me defender, mas não precisou, pois Andrea ainda estava caído. Então retirei a chave da cintura dele com cuidado e tranquei a porta do quarto.  
Quando abria o portão, o homem suplica pela janela para que Paulo Ricardo não deixasse o hotel, olhei para cima e vi o sangue escorrendo pelo pescoço. Empurrei o meu amigo para fora e bati a porta. Paulo Ricardo foi embora empurrado.
E assim consegui salvar o meu amigo daquela situação. Nunca entendi o que vi lá naquele hotel reformado aos moldes dos anos 70, como viviam, o que faziam naquele lugar mau cheiroso e roto pelo tempo, mas só sei que o trouxe novamente à realidade. Hoje ele tem vida própria, vive com a namorada e arrumou um emprego decente.
Às vezes, aquela situação me retorna à mente e fico me remoendo tentando encontrar uma resposta e como não me vem nada de concreto, deixo pra lá, pois o importante é viver a vida por inteiro, aproveitando cada minuto.  

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