quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os irmãos Blanche

Olá meus amigos, tenham uma excelente quinta-feira. Só para situá-los, semana chuvosa aqui na Baixada Santista.
Bem, para quem é fã do escritor Edgar Allan Poe hoje é um dia festivo, dia de seu aniversário.
E para comemorar, disponibilizo o conto “Os irmãos Blanche”, que faz parte das comemorações do mês e da edição de janeiro da Revista Conexão Literatura.
Espero que gostem, abraços,
Míriam

Os irmãos Blanche

         O meu conto desta edição de janeiro é uma homenagem ao aniversário (19/1) do grande escritor, poeta, romancista e editor norte-americano Edgar Allan Poe.
               Sou fã de Poe desde criança, mesmo sem saber quem era ele, vindo a conhecer sua obra bem depois, com predileção pelo conto “Os assassinatos da Rua Morgue”

         Depois do assassinato do italiano por seu melhor amigo espanhol, no verão de 1845, a Rua Morgue retorna à sua costumeira tranquilidade. O caso foi solucionado pelo chefe de polícia Deville, que para manter a situação no controle pediu a um de seus policiais para visitar semanalmente a conturbada rua do bairro de la Roquette, logradouro que volte e meia passa por adversidades.
         A missão à “mal falada” rua que ganhou esse boato pelos arredores de Paris, vem sendo cumprida pelo policial Thierry – jovem profissional de excelente conduta e disciplina – que deveria informar ao chefe possíveis infortúnios. E a ronda policial semanal é toda quinta-feira.
         Relembrando você leitor do acontecimento do episódio passado, foi na Rua Morgue que mais um crime ocorreu, desta vez, entre dois vizinhos: um espanhol e um italiano, este último, enterrado vivo, cuja evidência do crime foi descoberta no jardim da casa de número 30 da rua, logradouro de que falaremos neste novo fato.
         ...
         Outono de 1846, Thierry chega à Rua Morgue para mais uma ronda semanal. É quinta-feira e a rua esta cheia de folhas, provenientes da estação. Ele cumprimenta a senhora Françoise, que acompanhada por seu inseparável gato preto está varrendo a calçada da casa. Assim também mais alguns moradores recolhem folhas e outros dejetos trazidos pelo vento, e Thierry segue sua caminhada pelo local quando ele vê um rapaz varrendo a calçada e o policial logo se aproxima.
         - Bom dia, você é o novo morador? – Nunca te vi pelas redondezas, questiona o policial, que faz uma série de perguntas ao homem.
         - Prazer, eu sou Alain Blanche e me mudei para cá com minha irmã Anne, responde o desconhecido.
         E quando Thierry ameaça perguntar mais alguma coisa, seus olhos se distanciam de Alain e vão buscar uma silhueta esguia que desce vagarosamente os degraus da casa, de cabelos presos à nuca, era Anne, que vinha sorrindo para o policial, com a dentição perfeita, olhos esverdeados e nariz pequeno, imagem que fez com que o coração de Thierry batesse forte.
         Anne então vê que encanta o policial com sua beleza e charme e ao se aproximar estica-lhe a mão para cumprimentá-lo, num gesto tão doce, que o jovem policial – inexperiente no amor - fica encantado!
         E você leitor, que já deve estar com a conclusão óbvia de que Thierry se apaixonou pela bela moça, o policial passou a fazer a ronda diariamente, sem avisar o chefe Deville, assim como também começou a frequentar a casa dos irmãos. Alain disse que viviam da herança dos pais, e que Anne recuperava-se de problemas emocionais. E assim começou a amizade entre eles, que por intermédio do policial, os irmãos Blanche foram introduzidos à familiaridade da rua, cujos vizinhos eram, de certa forma, unidos e gostavam de festejar juntos determinadas ocasiões. Também vale a pena explicar que o policial contava sobre suas façanhas profissionais e de como funcionava a delegacia, enfim, até informações sigilosas.
         Para comemorar o suposto aniversário de ambos, Alain convidou todos os vizinhos e Thierry para uma festa em sua casa, já que a convivência – por intermédio e apresentação do policial – dos irmãos com os moradores da rua era muito boa e eles viviam na residência há três meses.
         Thierry então, aproveitando essa ocasião, resolveu investir numa surpresa.
Na noite da festa, Thierry estava nervoso, pois seria a noite mais marcante de sua vida (e realmente foi) e ele vestiu-se à altura de seu ato: iria pedir à mão de Anne em casamento. Comprando um anel de noivado com economia, o jovem policial não se cabia de tanta felicidade.
         E a casa dos Blanche fervilhava com os vizinhos brindando, comendo e se divertindo e foi então que Alain pediu silêncio ao brinde de boa vizinhança e de comemoração ao aniversário. Logo após seu pronunciamento, Thierry pediu espaço e Alain deu voz ao amigo da lei.
        
Com os irmãos próximos de si, Thierry tira do bolso do paletó uma caixinha toda forrada em cetim preto e olha para Anne. Nesta altura, todos já previam o que seria e aguardavam para aplaudir. Thierry então abre a caixa e retira um lindo anel de pedra semipreciosa e após declarar todo o seu amor entrega o anel. Anne, quase sem fala e toda envergonhada, aceita as juras de amor. E após aplausos e cumprimentos, Alain faz o brinde especial com vinho de boa qualidade.
         ...
         Já passava das dez da manhã quando o chefe Deville sentiu a falta do policial Thierry, perguntando por ele ninguém o tinha visto chegar à delegacia. “Algo estranho aconteceu”, murmurou o chefe Deville, pois Thierry era conhecido pela prontidão e pontualidade e nunca se atrasou, em nenhum momento.
         Deville, que já andava desconfiado de algumas atitudes de Thierry de uns três meses para cá (logo após a chegada dos irmãos), reuniu dois homens e partiram para a Rua Morgue. O trio começou a caminhar e o local estava deserto, o único a perambular era o gato preto da senhora Françoise.
         O chefe de polícia Eduard Ferdinand Deville e os dois policiais andavam pelo logradouro quando se deparam com uma cena dantesca que começava no alpendre da casa dos irmãos Blanche: corpos pelo chão por todo o imóvel até a sala e os quartos. As pessoas estavam deitadas, uns sentados e copos espalhados, quebrados, muita bebida e comida pelo chão.
        
- Depressa homens, verifiquem o pulso, grita Deville, com o rosto pálido, e os olhos lacrimejantes e arregalados face ao terror. E após verificarem que dormiam, Deville se encosta numa parede e vai escorregando o corpo, como quem fosse desfalecer. Com as mãos segurando a cabeça entre as pernas, um dos homens grita que encontrou Thierry entre os corpos, e este segurava em uma das mãos a caixinha do anel de noivado.
         Deville enviou todo o relatório e pediu ajuda ao colega C. Augusto Depin, o antigo chefe de polícia local que desvendou os assassinatos da senhora L’Espanaye e sua filha Camila, mortos pelo orangotango da Rua Morgue, pois precisava averiguar há quanto tempo e como os irmãos conseguiam praticar a estratégia de roubo. Um fato era certo, desta vez, contaram com a “ajuda” do apaixonado policial Thierry.
         ...
         - Já contabilizei nossas finanças e conseguimos quantia suficiente para não nos preocuparmos por algum tempo, diz Alain Blanche à irmã Anne. E já tenho em mente nossa próxima parada, diz ele. – O que tem, está tão distante, anime-se, pois esta é a nossa vida, diz ele.
         - Bem, vou comer alguma coisa, você quer? – Pergunta Alain se distanciando da irmã, que permanece sentada olhando a paisagem pela janela do trem.
         Assim que o irmão se distancia, Anne tira um bolinho de papel amassado do bolso e desembrulha com o maior cuidado, ao abrir o papel, o anel de noivado brilha entre suas mãos. Ela olha a joia por alguns segundos e torna a guardá-la novamente no papel, assim como enxuga as lágrimas dos olhos e se encosta ao banco do trem, pois teria uma grande viagem pela frente.
         Do lado oposto de Paris, no bairro de la Roquette, Thierry sonha com Anne e se debate em desespero. A enfermeira entra no quarto e lhe dá o traquilizante para dormir.


Edgar Allan Poe
Foi poeta, crítico e contista, nasceu em Boston, no dia 19 de janeiro de 1809, representando uma tendência à parte do movimento geral do Romantismo nos EUA. Cultivando na sua obra temas fantásticos e macabros, Poe personifica uma das tendências mais marcantes do movimento romântico transplantado da Inglaterra para a América.

Principais Obras:
Contos: O gato preto, Ligéia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice, O barril de Amontillado, Assassinato de Maria Roget, Os crimes da Rua Morgue, A Máscara da Morte Escarlate, William Wilson, A carta roubada, O Retrato Oval.


Poemas: O Corvo e outros Poemas (1845), Annabel Lee, A cidade do mar, Para Helena.

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