sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Conto: Transgressão

Olá meus amigos, muito bom dia a todos nós, sexta-feira, dia mais que esperado!
Como divulguei aqui na página na terça-feira, interessados em participar da 19ª edição da Revista Conexão Literatura, as inscrições estão abertas.
Estou fazendo meu conto para esta edição, que será lançada em janeiro, e deixo hoje o meu conto, que faz parte da revista deste mês.
Abraços, espero que vocês gostem.
Até amanhã,
Míriam


Outubro de 2016 e os veículos de Comunicação da Região Metropolitana da Baixada Santista noticiam que o maior centro de reservação de água cravada na rocha, o Reservatório-Túnel Santa Tereza/Voturuá abre inscrições para visitação.
E a reportagem logo chama a atenção de Matteo.  
-Mãe, venha ver que reportagem interessante – indaga o rapaz. – Que eu me lembre, não foi o papai que trabalhou na construção desse reservatório? – Questiona.
- Sim, foi ele, diz a mãe, sem muito entusiasmo.
E Matteo reserva um horário. No sábado agendado, o rapaz foi conhecer o grandioso equipamento, que do lado Santos, fica em frente ao canal da Moura Ribeiro, no bairro Marapé. E no túnel que dá acesso ao reservatório os visitantes assinaram o livro de registro para depois receber botas e capacetes. Matteo se sentou ao lado de um senhor que também calçava as botas de segurança e o homem logo puxou conversa com o rapaz.
- Eu fiz parte da construção, sabia? – diz.
- Não brinca! Que bacana, meu pai também, mas pouco sei sobre isso, pois minha mãe não fala desse assunto, responde Matteo Alves Albertini, se apresentando.
- Muito prazer, me chamo Fábio Luiz Almeida. Eu fui um dos fiscais da obra. Qual é o nome de seu pai?
- Ele veio da Itália e se chamava Francesco Albertini.
Foto de Sebastião Marinho - Google
Assim que Matteo falou o nome do pai, o homem parou de colocar as botas. -Sim, sim, me lembro dele. Como poderia esquecer? Ele falava bem pouco a nossa língua e também foi um dos fiscais da frente de trabalho que participei.
E o senhor ao terminar de vestir as botas, bateu na perna de Matteo chamando-o para que fossem assistir ao vídeo sobre o histórico da construção.
Matteo sentiu algo estranho com o senhor, que tentava mudar de assunto, e foi sentar-se ao lado dele continuando a conversa.
- Mas o senhor parou de falar, não disse mais nada sobre o meu pai.
- Já faz muito tempo, acho que beirando os 35 anos, minha memória não está lá grande coisa, o que lhe contou a sua mãe? – Perguntou o velho.
- Na verdade ela disse que meu pai faleceu na construção após um acidente. Ele não chegou a me conhecer e tenho quase essa idade.
- E foi isso mesmo, que eu me lembre, respondeu.
Mas Matteo não se deu por vencido e sentia algo estranho no ar, pois aquele senhor sabia de muitas coisas, as quais nunca foram expostas pela mãe. Algo no jeito de falar, ele deveria estar escondendo alguma informação. E ele queria saber a verdade. Matteo então ficou o tempo inteiro da visita dentro do túnel “grudado” no senhor Fábio. Vencido pelo cansaço, o homem deu-lhe seu número de telefone, marcando um encontro.  
         E depois de alguns dias assim aconteceu. Tomavam chá com torradas quando o senhor Fábio foi buscar algumas fotos da construção do reservatório, datadas entre 79 e 80, lembranças que fizeram com que o senhor retornasse ao passado...
         ...
       
Foto de Alex Trindade - Google
  Fomos contratados para construir uma das mais interessantes e fantásticas obras da Baixada Santista, pois na época, nada tínhamos de moderno e engenheiros e todos os trabalhadores tocaram aquilo lá na raça e na vontade. Na área ao redor existiam poucas moradias e a obra valiosa de engenharia foi ousada e perfeita, pois o reservatório continua abastecendo até hoje. Em duas frentes de trabalho mais de 300 homens entre pedreiros, soldadores, revestidores, engenheiros, fiscais, marteleteiros, concreteiros, ferragem e concreto atuaram naquele empreendimento. Eu e seu pai estivemos na primeira frente, em 79 e a escavação na rocha com o equipamento perfuratriz e cabo de fogo dava andamento à obra, que avançava em torno de 7 metros por dia dos dois lados simultaneamente, em Santos e em São Vicente, lá no topo onde hoje abriga o Horto Municipal. A obra funcionava 24 horas por dia e tínhamos alojamentos e como éramos um dos fiscais, eu e seu pai fizemos amizade. Ele era um jovem pacato de estatura mediana, de poucas palavras e a cada dia se aperfeiçoava no português. Ele era recém-casado, a sua mãe era uma mulher extremamente bonita e assim que se conheceram ele se apaixonou profundamente por ela. A sua mãe era daquelas mulheres que chamava a atenção por onde passava, era de virar a cabeça de qualquer um!
         E senhor Fábio enchia a xícara de chá de Matteo e continuava a conversa.
         Pois bem, e por conta da construção nós ficávamos muito tempo no local. E nossas mulheres ficavam muito sozinhas. E sua mãe por duas vezes foi visitar o seu pai causando o maior reboliço entre os homens, que desde então, começaram a perturbar o seu pai com expressões chulas e ele deu corda. Você sabe que não se pega corda, leva-se na esportiva, mas ele extremamente ciumento, fez exatamente ao contrário. E tudo piorou depois que sua mãe apareceu por lá grávida, aí, começaram a falar mil besteiras. Bem, para encurtar a história, estávamos fazendo o rebaixo com 16 metros de diâmetro, era um tipo de fosso, uma imensidão que cabia um prédio de cinco andares, e com a cabeça cheia, seu pai se distraiu e caiu daquela altura, sofrendo uma queda fatal. Ainda tive contato com a sua mãe, mas depois que você nasceu nunca mais os vi. E o homem percebeu a palidez no rosto do rapaz, que enxugou as lágrimas ao saber sobre a história do pai. O jovem se despediu convincente, e assim foi embora prometendo voltar em outra oportunidade.
         E no silêncio de sua viuvez, o senhor Fábio tinha a certeza de ter feito a coisa certa.
         ...
         Em outra dimensão diferente da nossa em que vivemos, diariamente, no mesmo horário, Francesco Albertini ainda revive o seu drama nas obras do reservatório-túnel...
São 16 horas e os seres rastejantes e monstruosos que habitam a escuridão daquele grau do círculo dantesco se preparam para acompanhar, mais uma vez, a trajetória interrompida da vida de Francesco. Ele vem se aproximando cabisbaixo com uma carta na mão. Com as mãos trêmulas ele enxuga as lágrimas dos olhos e deixa o papel cair. Ele se aproxima do rebaixo que tem os 16 metros de diâmetro e sem pestanejar, se atira no buraco, pondo fim ao maior bem existente no mundo, a própria vida.  E os seres rastejantes aplaudem e retornam ao buraco que vieram.
Para Albertini, a história demorará muitos anos a terminar. Não se sabe o que continha a carta, mas o suicídio voluntário é uma transgressão da lei divina.
Se cada fase da vida tem algo de importante para nos ensinar, é preciso descobrir o que está reservado para nós no acaso da existência. (A. Trigueiro, "Viver é a melhor opção").



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