quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Dia dos Mortos

Olá meus amigos, depois de um feriadão chuvoso voltamos à normalidade, né?
Bem, disponibilizo o conto Dia dos Mortos, história que faz parte da edição de novembro da Revista Conexão Literatura, espero que gostem.
Abraços,
Míriam

         A cidade mineira mais famosa do país, Ouro Preto, um Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade – declarado pela UNESCO em 1980 –, cidade que abriga um conjunto riquíssimo da história do Brasil foi o lugar escolhido pelos amigos paulistanos, que anualmente, em meados de novembro, se reuniam para curtir o que a vida tem de melhor: festas, baladas e mulheres – pensamento unânime dos jovens. Do ensino fundamental, ao médio e depois na faculdade, os rapazes sempre estiveram juntos.
         — Senta logo, você demorou. – diz Pedro Henrique a Gustavo, o segundo a chegar ao Buteco do Chopp. E assim, um a um foram se aconchegando ao local e Paulo chegou bem depois, o último a comparecer ao “sagrado” compromisso.
         — Vou pedir um pastel de angu para experimentar, diz Flávio, o único louro do grupo. De olhos claros e pele extremamente alva, os garçons o chamavam de alemão.
        
E os amigos jogaram conversa fora a tarde toda. Hospedados no mesmo local, a Pousada Casa Grande, bem ao lado da Praça Tiradentes, que é cercada por uma arquitetura belíssima, onde estão localizados o Museu da Inconfidência e de Mineralogia, o centro de informações turísticas, diversas lojas de artesanato e outras atrações.
         Riam e se divertiam os jovens amigos e Ouro Preto fervilhava por causa do feriado de 02 de novembro. E para os visitantes a cidade histórica oferece muitas atrações, como o Teatro Municipal, o mais antigo em funcionamento do Brasil e a Igreja de São Francisco de Assis, a mais famosa da cidade, obra-prima de Aleijadinho, considerada um dos maiores exemplos do barroco mineiro.
         E para quem gosta de agitação à noite, uma das opções era tentar encontrar alguma festa em uma das repúblicas da cidade, que são muito animadas ou então, a Rua São José, destino boêmio. E foi justamente esse o destino dos jovens amigos, que conversavam alto durante a caminhada até se depararem com uma festa que acontecia em uma república.  Misturando-se à multidão, que tomou conta da rua, os amigos se separaram, e cada qual foi curtir a festa à sua maneira.
         Paulo notou que uma bela jovem de cabelos aos ombros o fitava de longe. A morena trajava um vestido curto branco e o vento seco, agitava o seu cabelo liso, que pousava graciosamente em seu pescoço. Ela sorriu para ele, que rapidamente se aproximou da bela garota.
         — Posso lhe oferecer uma bebida, perguntou Paulo à jovem.
         — Não, sorriu a desconhecida. Eu vim somente por você, acrescentou.
         Paulo a olhou espantado franzindo a testa. — À minha espera, repetiu a frase em pensamento. — Como é o seu nome? Pergunta.
         — Eu me chamo Carla, não se lembra?
         Paulo fica confuso e balança a cabeça com um não.
Carla então se aproxima dele, o abraça e o beija fervorosamente. E Paulo retribui o afeto, enlaçando-lhe a cintura. E as lembranças do jovem começam a fervilhar sua cabeça e ele interrompe o beijo.
         — Deixa fluir, diz ela segurando-lhe as mãos. Paulo, você precisa aceitar a verdade.
         E Paulo sentou na calçada, a cabeça estava a mil por hora, os pensamentos indo e vindo em sua mente e as cenas da vida vinham como um filme de três anos atrás...
         ...
         O ano de 2013 retratava a madrugada do feriado de Finados e Paulo e os amigos foram se divertir em uma balada próxima à Rua São José, em uma luxuosa casa. Tinha muita gente e Paulo foi o convidado de um rapaz chamado Luiz Fernando. Firmando as vistas e se concentrando, Paulo viu nitidamente os amigos dançando e bebendo, se divertiam alegremente. Ele não conhecia o anfitrião, mas recebeu o convite por meio de um estudante amigo de Flávio. Logo que chegou Luiz Fernando foi ter com ele e muito amável, lhe ofereceu uma bebida e puxou conversa.
         Paulo enxuga o suor do rosto e as lembranças continuam fluindo.
        
Ele vê chegando à festa a morena Carla, lindíssima em um vestido negro que realçava a silhueta perfeita. Luiz Fernando chega perto da moça e a recebe com um beijo, pois Carla era a sua namorada. Rapaz de família abastada da região mineira, Luiz Fernando era conhecido e influente na cidade. Mas de temperamento extremamente forte, era possessivo, perverso e não admitia ser contrariado. Em certa hora da noite, Luiz Fernando vem com uma bandeja e oferece bebida a Paulo e Carla. — Não me façam desfeita, é um brinde especial!
         E Paulo saiu correndo pelas ruas de Ouro Preto, a lembrança foi demais para ele. Correu indo parar na Praça Tiradentes novamente. Carla chegou logo atrás e sentou-se ao lado dele.
         — Não adianta mais fugir disso Paulo, você tem que aceitar a realidade, disse ela. — Luiz Fernando descobriu que nos apaixonamos e se vingou de nós.
Paulo não conseguiu ouvir mais nada e se levantou novamente, correndo desesperado pelas ruas e Carla atrás.        Ele entrou pela pousada, queria falar com os amigos, que não estavam no quarto.
         Paulo procurou pelos companheiros em uma corrida frenética pelas ruas de Ouro Preto, até que Carla o fez parar, pois sabia onde os amigos estavam. Chegaram ao cemitério e Paulo os avistou. O dia já estava claro e os companheiros foram direto de uma balada brindar o amigo. Era Dia de Finados e todos saudavam a foto de Paulo. Falaram lindas palavras de amizade e partiram. Paulo assistiu a tudo e começou a compreender que realmente ele não fazia mais parte deste mundo, e sim, de outro.
         Os amigos lentamente se despediram dele e foram se distanciando do túmulo. Carla se aproximou e apertou-lhe a mão.
         — Fomos envenenados por Luiz Fernando, quando ele descobriu que estávamos apaixonados e que você estava de mudança para cá para ficar comigo, ele tramou tudo. Seus avós e seus pais preferiram enterrá-lo aqui na cidade mesmo.
         Paulo abraçou Carla e viu os amigos bem longe deixando o cemitério. Na verdade, ele sempre soube da verdade, mas não queria aceitá-la. Abraçados e em lágrimas, lentamente, os dois amantes foram desaparecendo deste mundo terreno.

         Finalmente, ele aceitou o seu destino.

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