segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O Cão Sem Plumas
João Cabral de Melo Neto

Olá meus amigos, tenham um bom início de semana.
Ontem fui assistir ao filme O Lar das Crianças Peculiares como anunciei, gostei, as crianças são ótimas, a história é interessante com efeitos bacanas, mas é um filme infantil para qualquer idade. Eu não li o livro, mas como foi produzido pelo Tim Burton, não achei que fosse para crianças, mas mesmo assim, valeu pela descontração.

Estou com um livro de João Cabral de Melo Neto para ler e me lembrei dessa poesia, que foi considerada como um dos dez melhores poemas de todos os tempos.
  
O Cão Sem Plumas
João Cabral de Melo Neto

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.

Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos povos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Espero que tenham gostado.
Abraços, até amanhã,

Míriam

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