segunda-feira, 25 de julho de 2016

A Intrusa

Olá, meus amigos, iniciamos mais uma semana, e que seja proveitosa para todos nós.
Terminei e enviei meu conto para a edição de agosto da Revista Conexão Literatura.
E neste mês, participo da edição comemorativa de aniversário de um ano com o conto “A Intrusa”.
Aproveite para ler os demais contos e também as novidades oferecidas, vale a pena, pois tem muita coisa interessante.
Obrigada, abraços,
Míriam

A Intrusa

Acordou com o sol batendo em seu rosto. A janela estava aberta e a cortina também. Viu que suas roupas estavam rasgadas, sujas e jogadas por todo o quarto, assim como objetos espalhados pelo chão. Aquele pesadelo outra vez! - sussurrou Fred.
E novamente ele não sabia o que tinha acontecido. Sentia-se cansado era como se toda a sua energia tivesse se consumido e o esgotamento era tanto que ele apenas conseguiu tomar um banho antes de cair na cama.
Quando acordou já era noite. E a fome bateu duramente em seu estômago que roncava alto. Fred abriu a geladeira e esquentou as sobras de janta, pois como dormiu praticamente o dia inteiro a comida ficou intacta.
Ele comeu, lavou a louça e foi assistir uma serie na TV. Estava feliz e sentindo-se bem, pois as dores de cabeça que o deixava confuso não “deu ar de graças”.
No dia seguinte passava das oito horas quando ele acordou. Rapaz forte de 19 anos, sua vida não tinha grandes acontecimentos e a rotina o deixava sem perspectiva.
Após o café ele saiu de casa e foi até a livraria. Procurava por um gibi específico dos Vingadores quando a dor de cabeça começa a importuná-lo. O inconveniente era tanto que Fred retornou para casa. Entrou e foi direto para a cama.
Acordou de supetão com dor pelo corpo todo e o coração batendo fortemente.  Percebeu que suas mãos e pés repuxavam-se, era como se os ossos estivessem se esticando e crescendo de tamanho. Assim também ele sentia o rosto se esticar, o nariz a crescer e viu pelos por todos os lados.
Morrendo de medo e sem explicação para o que vira conseguiu pegar o remédio e tomou três comprimidos, que o deixaram fraco e lentamente seu corpo foi caindo ao chão no meio da sala.
...
Acordou novamente com o sol batendo em seu rosto. Já passava das dez. A dor de cabeça recomeça e antes de sentar no sofá toma um analgésico. Encosta a cabeça no encosto do sofá para deixar o remédio fazer efeito quando seus olhos como se estivesse em transe ficam fixos sem piscar e lembranças vêm lentamente em sua mente, como um filme.
Fred se vê correndo numa espécie de mata ou floresta não consegue saber por que a neblina, assim como ele, vem descendo depressa. A imagem que vê de si é irreconhecível, com quase o dobro de sua altura e o corpo coberto por pelos. De repente, cheiro de carne fresca aguça o seu paladar e ele começa a salivar. Com o olfato e audição apurados, ele escuta alguém correndo não muito longe. A caçada começa. Uma jovem de cabelos louros ao ombro desce o morro numa desembalada; ela está desesperada. Ele se vê perseguindo a moça, que começa a gritar em vão, pois não tem ninguém para ajudá-la. Ela vai descendo com toda a sua força, mas tropeça num tronco e cai. Antes que pudesse se levantar, Fred dá um salto e pula sobre ela. A moça, apavorada, nem consegue mais gritar e antes de qualquer coisa, ele a abocanha o pescoço, mordendo e arrancando um pedaço. E as cenas que se seguem são de mutilação.
— Nãoooo! Grita Fred desesperado tentando enterrar as lembranças cruéis! — Não pode ser, diz ele chorando. E num salto bate com força a cabeça na parede. — Não posso ser esse monstro, e cai ao chão.
Nisso, alguém bate a sua porta e vai entrando. Uma mulher se aproxima ajoelhando na sua frente e levanta a sua cabeça. – Fred, me escuta, sou eu, enfermeira Mary Millan, você precisa ir embora, já sofreu demais.
— O quê, diz Fred sem forças.
— Não sei o que está acontecendo com você, mas vim te ajudar a deixar este lugar, diz ela e Mary explica tudo a Fred. — Na realidade aqui é um complexo clínico de estudos de pessoas que possuem doenças raras. Esse lugar simula um bairro com restaurante e tudo o mais para ajudar os pacientes a ter uma vida normal e reabilitação da realidade. Aqui também se faz muita experiência e pacientes são feitos de cobaias para pesquisas — explica Mary.
Pelo que sei, no intuito de melhorar sua vida, seus pais permitiram que você fosse trazido para ser tratado e estudado quanto a sua doença Hipertricose congênita também conhecida como síndrome do lobisomem, porque a pessoa tem pelos pelo corpo todo. O estranho é que ninguém da sua família tem essa doença. Desde então, você vem recebendo remédios fortíssimos que o deixam fora de si e da realidade com alucinações constantes, explica a enfermeira. E essas drogas podem aflorar seus medos e deturpar sua mente, diz Mary.
— Acho que isso já foi longe demais, continua ela, tenho como tirá-lo daqui, vou levá-lo para um lugar onde existem pessoas com a sua doença, diz Mary, que providenciou roupa de enfermagem e crachá funcional, falsos e aguardou para o momento oportuno.
Aproveitando uma pane elétrica, devido um temporal, Mary foi até Fred e os dois partiram. Viajando por estradas secundárias para não serem apanhados, depois de três dias conseguiram chegar ao México. Mary já tinha feito contato com o grupo e Fred foi bem recebido. Ela permaneceu por dois dias e depois retornou, pois tirara dez dias de folga.
Na clínica, ninguém desconfiou dela e as buscas por Fred eram incessantes.
A enfermeira estava aliviada e feliz por ter ajudado o rapaz, que vinha tendo alucinações ao completar 18 anos e para ela, a clínica estava lhe fazendo mal.
Mary foi escalada para duas semanas na ala terminal, estaria rendendo uma enfermeira em férias e sentiu falta de algumas pessoas. Nas fichas, o carimbo de óbito e observação de que os corpos não poderiam ser velados, que deveriam ser incinerados rapidamente. Isso fez com que Mary fosse verificar o que havia acontecido.
Ao chegar a casa onde ficava o necrotério, Mary começou a procurar pelos pacientes que conhecia e com muita habilidade falou que estava escalada para aquele serviço. Sem levantar suspeitas, afinal trabalhava na clínica há seis meses, ela teve acesso à preparação dos corpos que seriam incinerados.
            Mary fica sozinha na sala por alguns minutos e começa a procurar por pacientes conhecidos. Bem próximo ao incinerador ela se depara com um lençol cobrindo um monte. Ao levantar o lençol, vê um amontoado de corpos dilacerados. Eram pessoas mutiladas, destroçadas e com rostos desfigurados. Mary sente uma tremenda dor no peito e, apavorada, dá passos para trás.
            A enfermeira vomita e sai correndo do necrotério. Quando abre a porta do local vê a lua brilhando soberana no céu estrelado.    
Chorando e com a mão na boca para não gritar, lembra-se da doença de Fred.
E, das famílias no México...

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