segunda-feira, 20 de junho de 2016

Conto: Morro Preto, o mistério ronda Iporanga

Olá meus amigos, mais uma semana se inicia.
Ontem, escrevendo um conto e não tive como disponibilizar nenhuma história aqui na página.
Bem, mas a que segue hoje, faz parte da 12ª edição da Revista Conexão Literatura.
Espero que gostem.
Abraços,
Míriam

Um grito agudo misturado com uma espécie de uivo ecoou pela estrelada noite de Iporanga, no final do mês de junho, de 1987. Passava das dez e os poucos moradores que viviam às margens do Rio Ribeira de Iguape, entre agricultores, quilombolas e comunidades indígenas, todos espalhados dentro do território, recolhidos em suas moradias, ninguém se atreveu a verificar.
Eu me preparava para dormir quando escutei o barulho. Abri a janela do quarto do alojamento e nada podia ver além da escuridão. Deixei para lá e cai na cama, pois estava exausta.
No dia seguinte, na mesa do café, o assunto central girava em torno do grito e todos pareciam ter suas conclusões.
- Então, minha jovem, - perguntou Afonso, o mais velho do grupo, - o que você tem a dizer sobre o que ouvimos ontem à noite? Você escutou, não?
Imagem divulgação
- Oh, sim, mas cansada do jeito que fiquei abri a janela e não vi nada, então fui dormir, disse eu.
Vinícius se aproximou de mim e me beijou ao sentar-se ao meu lado.
E o pequeno grupo de espeleólogos continuou falando sobre aquilo, mas como não chegou a nenhuma conclusão, a conversa cessou, pois tínhamos coisas mais importantes a fazer e o fim de semana era muito curto para o trabalho.
Vinícius fazia parte da equipe há três anos e desde que nos conhecemos, aquela foi a primeira oportunidade para ele me levar para o Vale do Ribeira, mais precisamente ao PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira), local que abriga sítios espeleológicos, paleontológicos, arqueológicos e aproximadamente, 360 cavernas catalogadas, e eles faziam justamente a catalogação e pesquisa. Era um trabalho de formiguinha para eles, professores da USP, que não tinham verba para aquela pesquisa, faziam-na pelo prazer do estudo, já que a maior parte era biólogo e geólogo. Eu os conheci por intermédio de Vinícius em outra ocasião.
Estávamos em 12 pessoas e nos dividimos em dois grupos, com destinos a trilha do Morro Preto e caverna Morro Preto e cavernas, Couto e Santana e o outro grupo faria a trilha passando pelo Rio Betary com as cavernas, Água Suja e Cafezal.
Eu estava deslumbrada com a beleza e riqueza natural da região. E quanto mais andava pela mata, mais tonalidades de verde meus olhos desbravavam em meio a tanta folhagem, uma coisa de louco de lindo!  Sem contar que próxima à caverna Couto borboletas azuis e de outras cores comiam frutinhas ao chão formando um lindo tapete no meio da trilha. E eu acompanhava a equipe de professores, estudiosos e amantes da natureza boquiaberta.
Vinícius ficou feliz em saber que eu estava amando tudo aquilo. Após a caverna Couto partimos para outra gruta, batizada de Laboratório, pois naquele local os espeleólogos estudavam o bagre-cego, espécie de peixe que vive em ambientes onde não há entrada de luz.
Quando deixamos a cavidade, encontramos o Joaquim Justino ou JJ como era conhecido, espeleólogo e guia de Iporanga e conhecedor da região como ninguém. Ele, no entanto, estava intrigado e foi logo falando:
- Vocês escutaram o uivo de ontem à noite? 
- Sim, responde Paulo, outro biólogo. O que você nos diz?
- Não sei ao certo, mas acho que vocês não devem andar à noite por aí. E JJ continuou seu caminho. Estava com humor diferente de seu jeito habitual.
Chegamos à trilha Morro Preto, e a caverna de mesmo nome ficava lá no alto, uma senhora subida, ufa! Com uma imensa boca de entrada, a maior da região, os professores colheram material para estudo, e o grupo resolveu adentrar mais toda a caverna e a descida parecia sem fim. Iluminamos com as lanternas e luzes auxiliares um grande salão e por entre estalactites e estalagmites, havia duas passagens, sem saber por qual, optamos pela da direita. E, de repente, quando já estávamos perto do que parecia o final da caverna uma luz de formato arredondado e do tamanho de uma porta se abre.
Levei um tremendo susto e ao voltar os passos para trás, tropecei e cai ao chão. Vinícius ficou hipnotizado com aquilo à nossa frente. Renato e as outras duas professoras, Rose e Wilma, também.
- O que é isso, minha gente? Grita Renato, perplexo e caminhando em direção à luz. Sendo seguido por Rose, que sorrindo, segurou na mão dele e caminhou a seu lado.
Fiquei sem voz, não conseguia falar nada. Vinícius, saindo do transe, segurou o braço de Wilma e não a deixou segui-los. Vinícius gritou para que parassem, mas já era tarde demais, pois os dois atravessavam a porta iluminada.
Nisso, alguém se aproxima de nós, era JJ. Com força e convicção, sem olhar para a luz, chamou a nossa atenção e nos ordenou a sair de lá.  
- Vamos embora daqui, disse o guia para nós. E foi nos puxando e conduzindo, até que saíssemos da caverna.
- O que foi aquilo JJ? Perguntam Vinícius e Wilma chorando. Temos que entrar para tirá-los de lá, gritavam em estado de choque.
- Não sei, mas olhei para trás quando saíamos e vi que a luz se apagou.
- Não! Berraram os dois...
...
Imagem divulgação
- Podem parar com essa palhaçada de história todos vocês! – Grita o delegado com um soco na mesa para o grupo de espeleólogos, professores da USP. Como posso colocar isso no relato do sumiço de duas pessoas no PETAR? - Diz ele. E depois de muita conversa com intervenção de um advogado, conseguimos deixar a delegacia.
E vocês devem estar se perguntando, e o que aconteceu com o grito logo no início da história?
Há, sim, quando retornamos à delegacia novamente passado um mês para novos depoimentos fomos ao vilarejo procurar o JJ e retornamos à caverna, que para nossa tristeza, nada havia de diferente além das rochas.
JJ disse que ouviu o uivo mais uma vez, mas nada aconteceu com ninguém de lá. Ele explicou que no início de seus antepassados quilombolas em Iporanga, algo semelhante aconteceu no vilarejo e a história demandava cem anos. No entendimento deles, a vida é uma eterna troca de espíritos, independente do tempo de ida e vinda.
E o grupo ficou cabisbaixo, sem ter o que falar, mas jurou não desistir dos amigos, até encontrar uma resposta, algo para que pudessem trazê-los de volta.

Essa história homenageia o JJ, falecido dia 17 de maio, aos 78 anos de idade. Foi guia local e grande espeleólogo de Iporanga, região que frequentei no final dos anos 80.  

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