segunda-feira, 9 de maio de 2016

Conto Estação Evangelista de Souza

Olá meus amigos, vamos a mais uma semana!
Espero que a segunda-feira seja proveitosa para todos nós.
Pessoal, disponibilizo o conto Estação Evangelista de Souza de minha autoria, história que faz parte da revista mensal Conexão Literatura deste mês.
É um conto inspirado em uma realidade da história da Baixada Santista quando ainda funcionava a estação ferroviária. Espero que gostem.
Abraços, até amanhã,
Míriam

Fim de tarde de sábado invernal com amigos reunidos em um bar resultou em muitos causos contados por todos eles e as moças - namoradas, filhas e esposas - ouviam a tudo atentamente. Esse episódio me recordou um dos livros sombrios mais emocionantes que li: Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. E eu fui o último a falar. Eu não queria, mas o grupo empolgado batia com os copos nas mesas e gritava meu nome. Dei então um suspiro, num gole terminei a cerveja da caneca e comecei a contar meu episódio, que se passou no final dos anos 80, quando ainda funcionava a Estrada de Ferro Sorocabana. - E na antiga estação Santos hoje atua a Estação Cidadania (lateral do Hipermercado Extra), espaço cultural para debates e cursos gratuitos promovidos pela prefeitura.
Era uma noite de sexta-feira de 1989 e eu estava feliz porque iríamos a uma grande aventura: acampar no alto da serra! E sem destino, pois ninguém do grupo de seis pessoas conhecia o lugar. Pois bem, o trem partia às 5 horas da manhã e para isso ficamos na casa da Kathia, por ser bem próxima à estação Santos. Foi a maior farra e quase nem dormimos. Eu, porém, aproveitei bem as poucas horas de sono.
Então o horário chegou e partimos. Levamos mochilas, barracas, lanches, enfim, itens para acampamento só não sabíamos onde desceríamos. E foi então que ouvimos alguém falar no vagão sobre a Estação Evangelista de Souza; e, em comum acordo de nossos olhares, esse local ficou escolhido.
Ao apito, o trem continuou a viagem e bem devagar foi se distanciando da estação. Meus olhos filtraram tudo o que existia ao redor: alguns trens velhos e inutilizados e a natureza. Essa sim esplendorosa com a chegada do sol que baixava seus raios ainda fraquinhos às 7 horas da manhã. Sem rumo, avistamos uma pequena entrada na mata e caminhamos por uma trilha ainda molhada pela neblina da noite.
O grupo era composto por quatro homens e duas mulheres e andamos por mais ou menos duas horas e meia até chegarmos numa área também no meio do nada; porém local ideal para montarmos as barracas já que de certo modo afastado da trilha. Fizemos uma fogueira, colhemos frutinhas silvestres e aproveitamos o dia explorando a mata, que tinha as mais diversas tonalidades de verdes mesclados ao colorido das flores. Como onde estávamos não havia postes de luz, a noite chegou cedo e também foi bem aproveitada com muita diversão. O grupo animado conversou muito, nos divertimos cada qual contando sua história como estamos fazendo aqui agora, — prosseguia Roberto.
No silêncio de nossas vozes, os sons noturnos se tornaram mais evidentes. E para àqueles que têm medo do escuro então, danou-se! E o colega Maurício tinha pavor da escuridão! Alto, forte, atleta, mas bastava apagar a luz que ele se tremia todo e imaginem vocês naquele breu total, apenas com a fogueira ao centro... de arrepiar!
Fomos dormir e nem mal havia fechado os olhos quando alguém grita:
— Pessoal preciso ir ao banheiro e não posso ir sozinho. — Era Maurício!
— Eitaaaa, todos nós berramos e foi aquela farra! — Vai lá você sozinho cagão, gritou Manoel.
— Eu daqui de dentro não saio! — Fala Ricardo já abrindo o zíper da barraca. E as risadas descontraídas cessaram com a insistência de Maurício, que tava apertado.
Todos nós saímos das barracas com lanternas e fomos “escoltá-lo” até algum lugar para que ele pudesse fazer pipi. Claro que todo mundo tirou o maior sarro da cara dele. E mais gente aproveitou também o embalo do banheiro improvisado. Retornávamos quando ouvimos um som alto e estridente vindo de não muito longe.
— O que foi isso pessoal? — Grita Maurício com voz trêmula.
— Não sei falou Kathia, a namorada dele, também morrendo de medo.
Manoel era o único que levou um facão para cortar gravetos e a ferramenta ficou na barraca. — Calma gente, deve ser alguma jaguatirica, ou onça-parda. E mal ele acabou de falar e todos começaram a gritar de medo.
— Só isso Manoel? — disse Claudia. E nem temos nada nas mãos para afastar o animal. E o rugido foi ficando cada vez mais próximo.
— Corre gente, gritou Ricardo.
E todos com as lanternas empunhadas saíram correndo pelo caminho rumo às barracas. Mas eu tropecei, cai e me levantei tão rápido e me pus a correr novamente. Só que me distanciei deles e o som foi ficando perturbador de tão perto. Eu tremia de cima em baixo e suava dos pés à cabeça e mal conseguia iluminar o caminho. Foi quando não escutei mais nenhum som. Com a lanterna se alternando entre as mãos eu iluminava para todos os lados. Tinha andado em círculo e retornei de onde saímos. O grupo eu escutava chamar o meu nome de longe. O animal parou com o rugido, contudo, senti um cheiro forte. Olhei ao redor e peguei um pedaço grande de pau. Sabia que o bicho está me rodeando. Não adiantava mais correr. E dito e feito, em poucos segundos senti uma enorme pata me atacar, rasgando a minha camiseta. Mesmo sem enxergá-lo, o atingi fortemente com o pau. O bicho deu um rugido alto, e daí ele retornou com tudo. Seus passos pesados quebravam gravetos no chão. Não conseguia ver nada, pois a lanterna começou a falhar e o suor a escorrer em meus olhos. Escutava que se aproximava, foi quandoooo...
...
Uhuuu!!!! Todos do bar começaram a gritar e assoviar em pé aplaudindo!
— Robertão, meu chapa, isso é que é história, heim? Até parece de pescador! — Gritou Clóvis, o dono do bar com um sorriso enorme. E é isso aí pessoal, disse ele, continuamos com a brincadeira na próxima semana, vamos embora moçada.
E os amigos foram pagando a conta e se despedindo. E eu abraçado porque, mesmo sem terminar de contar, todos gostaram.
Como estava sozinho e um pouco alto retornei de táxi e logo cheguei ao apartamento. Acendendo as luzes fui tomar um banho antes de dormir.
Sem camisa em frente ao espelho do banheiro passei a mão por entre os pelos do peito e senti a cicatriz, imperceptível para as pessoas, mas real para mim.

OBS.: Em 1997, com a suspensão da linha Embu-Guaçu-Santos para passageiros, a estação deixou de atender a população. 

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