terça-feira, 29 de março de 2016

A mulher de negro

Olá Amigos, uma boa terça-feira para todos nós.
Deixo o conto A mulher de negro, de minha autoria, que faz parte da nona edição da Revista Conexão Literatura.
Caso não tenham lido, destaco aqui na página.
Espero que gostem.
Abraços,
Míriam

Foi logo na minha primeira noite no Porto que vi a mulher de negro, como passei a chamá-la nos dias que se seguiram de minha viagem. Ela se fez notar, não só a mim, que jantava no mesmo restaurante ao lado do hotel Quality Inn, na Praça da Batalha. Quando ela adentrava com seu traje (vestido curto) sempre negro e os cabelos soltos ao vento, causava olhares ao público masculino, principalmente a mim.
Ela não era uma mulher linda, não senhor, não tinha um corpo escultural e nem altura que chamasse a atenção, muito pelo contrário, tinha os cabelos cacheados até o ombro, corpo que se via sobras na cintura, coxas grossas, enfim, nada diferente de tantas mulheres que desfilam diariamente pelos cantos do mundo. Porém, algo na mulher de negro mexia com o meu imaginário. Recém-separado da namorada e em férias do serviço, o dinheiro economizado de horas extras de dois anos de trabalho me renderam 10 dias em Portugal. Confesso que o país nunca me atraiu, mas como dizem que pagamos pela boca por falar demais, eu simplesmente adorei a terra dos “patrícios”, paguei pela língua grande, pois desde o desembarque, fui me apaixonando, depois tem outra coisa, o mesmo idioma, povo hospitaleiro e culinária deliciosa. Durante o dia andava pela cidade e conheci lugares maravilhosos, como Gaia, atravessando a ponte que corta o rio Tejo, do outro lado do rio. Também peguei o trem na estação ferroviária muito bonita e arrumada e fui conhecer Guimarães, local onde nasceu Portugal. Conversei com muita gente, pois sou bom de papo e assim pude curtir o máximo de lá. Os meus dias e noites de turista seguiram-se desta maneira. Mas o que me deixou mesmo intrigado foi a tal mulher. Ao hotel, o pós-banho vinha acompanhado da melhor roupa e perfume, comprado exclusivamente para o “se rolar algo”. E assim todo produzido eu ia jantar no mesmo restaurante (Tropical) para encontrá-la. Degustava sozinho bem devagar, sem pressa, à espera dela e em minha cabeça iam e vinham incansavelmente todos os pensamentos possíveis sobre ela, até mesmo os impróprios! Era um mistério a desvendar, eu não conseguia entender o porquê de toda aquela cobiça com tanta moça bonita pela cidade me dando bola. E quando ela entrava com seu traje negro, meu coração se alegrava. A dama fazia tudo sempre igual: sentava-se no mesmo lugar, junto ao balcão, comia um mísero sanduíche, tomava uma taça de vinho e ficava de conversa com o garçom. Por vezes virava discretamente a cabeça para trás e passava os olhos rapidamente por todos das mesas. E por fim, despedia-se e partia! E num piscar de olhos, sumia em meio às pessoas que caminhavam na rua. - Confesso a vocês, queridos leitores, que aquela mulher me deixou tentado, atrapalhando as minhas férias. Por mais que a presença dela mexesse comigo, eu não conseguia chegar até ela, não sei explicar, mas algo nela parece que a deixava “intocável”, uma mistura de interesse e medo. Hoje tenho clareza disso, mas na época desse episódio, com a cabeça sempre voltada ao sobrenatural, meus olhos e mente, percebiam algo sinistro na mulher de negro... Pois bem, para tirá-la de meus pensamentos, resolvi mudar de restaurante. Saí do hotel e mal olhava para os lados para saber em qual deles eu iria jantar, eis que aquele vulto negro vem se aproximando, caminhando lentamente pelas ruas; parei na entrada do hotel e fiquei a observá-la: seu corpo mexia-se num rebolado lento, as coxas encostavam uma na outra a cada passo, na saia justa negra que ficava acima dos joelhos. Os cabelos sempre esvoaçantes por vezes iam ao rosto com o vento, e suavemente os fios eram retirados. Por fim, ela adentrou ao restaurante, como de costume. Não entrei, permaneci de tocaia onde estava. – Hoje irei segui-la. Tenho certeza de que isso pode me custar muito, mas mesmo assim, vou saber onde mora e o que ela faz ao deixar o recinto, - pensava. E assim aguardei. Ela não demorou, em 40 minutos cravados no relógio pagou a conta e se despediu. Ao sair, disfarcei para que ela não notasse a minha presença. E a mulher de negro seguiu seu rumo pela mesma rua em que chegou. Caminhando devagar, ela não sabia que estava sendo seguida. Com o coração saindo pela boca de empolgação, e a mente, essa sim, me mostrava mil e uma histórias sobre a mulher de negro: uma vampira, sim, deve ser isso, pensava eu. E aí me veio a imagem dela com os dentes afiados e os lábios com sangue! Estremeci e comecei a suar! Amparei-me numa parede de um comércio até que respirei fundo e a cena desapareceu. Continue atrás dela. A mulher entrava e saia de ruas, e passava por becos, alguns até escuros (se estivesse no Brasil, com certeza seria assaltado), mas em Portugal, segui! O destino não chegava nunca! E mais uma vez, a vi como imaginava ser o seu íntimo: loba, sim, ela com certeza e pelas formas arredondadas era uma loba! E num piscar de olhos a mulher de negro estava transformada e com mais de um metro e oitenta de altura. Daí não aguentei e desmaie...
...
- Você? Gritei ao ver a mulher de negro sentada ao lado da cama onde eu repousava. Onde estou e como vim parar aqui? O que fez comigo, ainda estou inteiro? Fui metralhando perguntas, as mais imbecis possíveis, é lógico.
- Psiu... fez ela sinal com o dedo na boca, para que eu ficasse calado. Você está em minha casa. Ao escutar o barulho e ver que você estava desmaiado, chamei ajuda, pois já estava aqui perto. Só queria saber por que me seguia. Vi você várias vezes no restaurante do Senhor Antônio e fiquei interessada, então resolvi voltar todas as noites pensando que você fosse se chegar. Mas nada aconteceu. Já tinha desistido quando percebi que você me seguia.
– Disse Claudia, sim, a mulher de negro falou seu nome e eu achei lindo. Claudia não tinha nada de sobrenatural, não voava e nem sugava sangue de ninguém, muito pelo contrário, era sim sugada pela atual condição financeira que se encontrava o país e com seu mísero e suado salário, conseguia sobreviver.
Ao me apresentar a sua casa, de um cômodo, ela dormia na sala, pois a cama que eu ocupei por poucas horas, deitava a avó. Claudia trabalhava o dia todo e a avó morava com ela. O único prazer que ela tinha era frequentar o restaurante do tal Antônio.

E assim nos conhecemos. Ficamos amigos e nos correspondemos por dois anos. E depois desse tempo, nunca mais nos vimos. Nunca mais como amigos, porque nos casamos, é lógico! Ou vocês pensavam que depois de tanto diz que me diz iríamos ficar só nisso? E acabei me mudando para Portugal!

Pessoal, não deu para colocar imagem, estou com problemas de internet, tentando resolver, pois tem dia que fico sem conexão.
Obrigada, abraços,

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