segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Olá meus amigos, vamos que vamos começar mais uma semana, e que seja produtiva para todos nós.
Hoje disponibilizo um de meus contos: Ladrão, que faz parte da 8ª edição da Revista Conexão Literatura, e espero que gostem.
E por falar na revista, as inscrições para a 9ª edição estão abertas, saiba como participar.
Obrigada, abraços,

Míriam

 

Ladrão
Míriam Santiago

O ladrão andava sorrateiramente por ruas tranquilas da Ponta da Praia, bairro de classe média alta da cidade de Santos. Local que atualmente, parece esquecido pela Polícia; assim reclamam os moradores.  
Marcos era um rapaz de boa aparência que tinha uns vinte e poucos anos e vivia sozinho depois que perdera o que conquistara: o emprego e a dignidade. Formado em Administração, veio de uma cidade rural de Minas tentar a sorte em São Paulo e em pouco tempo, conseguiu pagar a faculdade e manter-se em um emprego.
“Tentado” a melhorar de vida, junto com um amigo abriu um negócio no Centro de Santos, mas a microempresa, na atual situação econômica do País (que piorou em 2015), não conseguiu ter lucro e faliu. Marcos e o amigo não conseguiram fechar a firma e eles se “enterraram” em dívidas. O colega foi embora e Marcos, cheio de orgulho, não retornou à sua terra natal, a vergonha falou mais alto e ele, sem saber o que fazer, passou a viver da sorte.
Desorientado e sem recorrer a ninguém, vivia de doação, de esmolas, estando ao tempo. E assim ele escolheu o bairro em questão e sorrateiramente, começou a observar o cotidiano de moradores. Não queria ferir ninguém, apenas tirar sem sustento.
Foi numa dessas empreitadas da sorte, que ele escolheu a próxima vítima.
Por várias noites acompanhou a rotina de um morador, um senhor solitário também que aparentava ter mais de 65 anos, e o homem saia para caminhar todas as noites. Ele morava em um sobrado bem arrumado, com um lindo jardim na frente.
— Hoje é o dia, entrarei e pegarei o que posso em menos de 50 minutos, pensava consigo o ladrão.
Com o coração batendo forte, ele aguardou e no horário exato, o homem saiu para caminhar.
Marcos notou que a casa não era provida de alarme e não perdeu tempo, vestido de negro, entrou pelos fundos. — Tenho que me apressar, dizia para si, acalmando o batimento cardíaco.
Correu para os quartos e seus bolsos vazios foram ganhando tamanho com relógios, anéis e correntes de ouro. Achou dinheiro em uma gaveta e mais miudezas de valor colocou na mochila.
No closet vestiu dois casacos que seriam fáceis de vender, além de calças e sapatos de marca que guardou em outra mochila. Desceu rapidamente para pegar alguns aparelhos da sala. Caminhava com precaução a olhar o que caberia na mala de viagem de mão quando seus olhos foram atraídos na direção de uma pequena prateleira. A sala não estava clara, mas seus olhos se fixaram na luz que advinha da estante e lá estava ela! Majestosa e deslumbrante, uma caixa toda decorada de uns vinte centímetros fez Marcos esquecer-se dos objetos que tinham na sala. A caixa era entalhada com figuras sem rostos em finos fios de ouro e adornada em pedras preciosas, era delicada e ao mesmo tempo soberana.
Marcos não se importou com mais nada e deixando os bens de lado, pegou a caixa cuidadosamente guardando-a na mala.
Chegando a um imóvel abandonado no Centro de Santos, dos muitos que existem naquela região, ele rapidamente limpou a mesa velha e empoeirada e colocou a caixa. A casa não tinha luz, mas a caixa conseguia prover e iluminar o local.
— Ela é maravilhosa, não me canso de olhar para tal beleza, repetia Marcos a si mesmo, com os olhos fixos no objeto. A atração era tanta, que ele nem tentou abri-la, apenas sentou-se em frente a contemplá-la.
Assim os dias se passaram. Marcos não saiu mais para furtar e suas provisões foram se acabando. Seu tempo era exclusivamente para o objeto.
Quanto mais ele a admirava, mais brilhosa ela ficava.
O ladrão estava apaixonado, o baú agora fazia parte de sua vida.
Antes de completar vinte dias, a caixa foi perdendo o seu brilho, a luz foi se apagando, assim como Marcos, cuja respiração foi ficando mais fraca em seu corpo definhado e enrugado de inanição. A caixa então se apagou, assim como o ladrão tombou ao chão, ao lado da mesa.
...
No tempo de uma hora um vulto chega à casa do ladrão. Era o dono da caixa.
O homem entra calmamente e vê o corpo do pobre infeliz. Olha para a caixa em cima da mesa, se aproxima do objeto, e levantando-a em seus braços, desliga o sensor de localização apenas deslizando sua mão ao fundo da caixa. Ele então guarda o objeto em uma sacola e deixa o local.
Já em sua casa, o homem leva a caixa até a prateleira onde ela ficava. Cuidadosamente ele a coloca em seu lugar e ao abrir sua tampa, rapidamente sorve toda a energia que dela emanava. Tampa a caixa novamente e a deixa no mesmo lugar.
Se afastando do objeto, ela começa a brilhar novamente.
O homem então dá um suspiro e olha-se no espelho.
Aparentava agora uns vinte e poucos anos!

9ª edição da Revista Conexão Literatura

Interessados em participar da 9ª edição da Revista já podem enviar material para a próxima edição, que será publicada no início de março.
Para os autores que queiram divulgar o seu livro e trabalho na revista, ou mais informações, envie um e-mail para o organizador Ademir Pascale: pascale@cranik.com


Nenhum comentário: