quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Olá meus amigos, tenham uma excelente quarta-feira.
E o dia hoje merece um pouco de poesia, então deixo O Crepúsculo da Manhã, de Charles Baudelaire, do livro As Flores do mal.
Até mais, abraços, Míriam

 

O crepúsculo da Manhã

Charles Baudelaire

 

Cantava a Diana pelos pátios das casernas,

E o vento matinal assoprava as lanternas.

Era a hora em que o caudal dos sonhos repelentes

Retorcia na cama alvos adolescentes;

 

Como um olho a sangrar, que vibra e se desmancha,

Uma lâmpada ao sol era vermelha mancha;

E a alma grave do corpo imitava a porfia

Da luta que travava a lâmpada com o dia.



 

Como um rosto a chorar e que à brisa se enxuga,

Havia o tremor no ar dos objetos na fuga,

Lasso era o homem de ler como a mulher de amar.

As mansardas além pareciam fumar.

 

As mulheres do amor com seu olhar febril Dormiam a roncar o seu sono imbecil;

As pobres, arrastando os seios frios, magros,

Sopravam seus tições e seus dedos amargos.



 

Era a hora em que, no frio e miserável quarto,

Se acrescentava a dor das mulheres no parto;

Um soluço cortado e por sangue espumoso,

Cantava o galo ao longe, a ferir o ar brumoso;

 

A névoa - um vasto mar - banhava os edifícios

E os homens, a morrer no fundo dos hospícios,

 

Davam seu estertor, mas em soluços falhos; Voltavam os rufiões, roídos de trabalhos.

A aurora, tiritando em seu vestido aberto,

Ia lenta a avançar sobre o Sena deserto,

E os olhos esfregando, o sombrio Paris

Apanha a ferramenta, operário feliz.

 

 


"As Flores do Mal", cujos poemas mais antigos datam de 1841, despertou hostilidades na imprensa, considerado maldito e julgado imoral. Estas "84 Flores do Mal" são mais um elogio à "parte maldita" que faz da poesia o melhor da vida.

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