sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Tenham uma excelente sexta-feira!
Hoje disponibilizo aqui na página o conto Toda a eternidade, que faz parte do Fanzine nº 2, organizado pelo escritor e ativista cultural Ademir Pascale.
Vale a pena ler a revista, pois tem muita coisa legal.
Por hoje é só.
Obrigada, abraços,
Miriam 

 Toda a eternidade

Mais de 40 anos dedicados à educação e uma vida regrada de casa para o trabalho e aos finais de semana missa na igreja São Judas Tadeu, que fica perto de sua casa. Miguel Soares é uma pessoa de pouco rir e diversão não existe para ele, essa palavra nunca constou em seu dicionário, e, tão pouco, em seu ser.
Miguel tem 76 anos, porém aparenta mais idade. Nunca se casou e foi se deixando levar pela vida; aliás, não por ela, mas pela rotina e mesmice de dias vazios, sem nada a contar, sem nada de interessante acontecer. Assim era a vida de Miguel, aposentado há alguns anos sem nunca ter viajado, ou cometido um grande erro, algo que chamasse a atenção.
Mas naquela semana o homem estava diferente e saindo com frequência, que não era habitual.
 - Miguel, estou surpresa, fiquei sabendo que você tem saído da rotina, é verdade? – Perguntou Cristina, a única amiga e pessoa que cuidava dele, que passava em sua casa todos os dias para fazer-lhe a comida e cuidar de suas coisas.  Cristina trabalhou na casa dos pais de Miguel há muitos anos atrás, quando era bem jovem e sempre gostou dele, e assim a amizade se fortaleceu entre eles.
- É minha amiga, estou seguindo seus conselhos, de aproveitar a aposentadoria. – Respondeu Miguel com um sorriso no rosto.
Mesmo assim, Cristina ficou intrigada porque aquele não era o feitio dele.
- É que o Carnaval está chegando e estou me preparando, disse Miguel.
E ambos riram descontraídos e Cristina, claro, não o levou a sério.
Uma semana antes da maior festa nacional, e para quem mora em Santos/SP sabe acontece o Carnabonde e era esse o grande evento que Miguel tanto ansiava.
O sábado chegou e para Miguel, expectativa sem igual. Ele acordou cedo e como sabia que Cristina não passava em sua casa aos sábados, teria como se preparar sossegado para o grande dia.
Tomou um banho demorado, escolheu sua melhor roupa, se perfumou e almoçou calmamente, depois chamou um táxi e partiu.
Chegando à Praça Mauá, Miguel estava radiante. Trajando calça jeans e camisa de manga curta, ele se sentiu à vontade, mesmo com tantos foliões que brincavam contentes embalados às marchinhas carnavalescas antigas, da época em que ele era jovem. Devagar Miguel foi andando por entre as pessoas e viu muitas crianças fantasiadas jogando confete com os pais. A inocência de um mundo que não existe mais observou Miguel.
       E a hora mais aguardada por todos que dançavam e pulavam chegou! Era o bonde que chegava ao ritmo das tradições do antigo Bloco Gueixas do Atlanta, que fez sucesso em desfiles da década de 1950.
Miguel assistiu contente àqueles momentos de flashback mais felizes de sua vida e sentiu um aperto no coração. Se distanciando do local onde ocorria o desfile e a festa no bonde, foi sentar-se nos degraus do Paço Municipal, atrás do palco de shows.  
Antes mesmo de começar a pensar, viu em sua direção Flora, o único amor de sua vida. A senhora trajava um vestido estampado e leve de verão. Caminhava por entre a multidão como se estivesse sozinha, como se não existisse ninguém e a cada passo, a juventude foi tomando conta do semblante de Flora. A dor forte no peito fez com que o coração de Miguel batesse bem devagar e em sua mente toda a sua vida se desenrolou em pensamentos, todo o sofrimento do amor proibido, impossível porque Flora era prometida e nunca pode ser sua e com um sopro, toda aquela amargura foi se dissipando ao vento que batia em seu rosto. Antes que Miguel fechasse os olhos, Flora estava diante de si e estendeu-lhe as mãos e ele se levantou.
Os dois se abraçaram e se beijaram. Miguel olhou para trás e despediu-se de seu velho corpo, que ficara sentado nos degraus da prefeitura e os jovens amantes de mãos dadas caminharam felizes por entre os foliões. Agora tinham a eternidade para compensar a vida perdida de quando se conheceram com 18 anos em um baile de Carnaval, e que nunca puderam ficar juntos.
...
Na casa de idosos, o médico Carlos chorava ao se despedir de Flora, que muito fraca da doença falecera naquele início de tarde.
No apartamento de Miguel a amiga Cristina, que preocupada com ele foi vê-lo mesmo sábado, dia não habitual, e se deparou com uma surpresa, pois Miguel havia deixado uma carta contando que naquela semana ele reencontrou na casa de idosos o grande amor de sua vida depois de longos anos de espera. Ela estava muito doente.
Cristina dobrou a carta com lágrimas nos olhos.
O amor verdadeiro é para toda a eternidade, pensou Cristina ao fechar a porta do apartamento.    


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