sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Bom dia a todos e tenham uma excelente sexta-feira!

Quando navegava na página Livro Destaque, li e gostei da poesia de António Corvo e disponibilizo aqui para vocês.

Espero que gostem.

Grande abraço,

Miriam

 

Poesia de António Corvo

 

No dia em que saí do estaleiro
Batizada de champanhe com teu nome
— molhada de álcool e de homem —
Recebeu-me o oceano por inteiro
Fui de um a outro continente
De calmaria a tempestade
Às vezes sem a menor vontade
À deriva, vento em popa, contente
Ah, tantos portos e pessoas conheci
Fui de carga, reboque e passageiro
Ora às correntes, ora ao timoneiro
Naveguei, soçobrei, adernei, (vi)vi
Então um dia uma onda traiçoeira
— Não duvido, inveja de sereia —
Levou-me à praia em cuja areia
Escrevemos nossos nomes, noite, candeia
Aquele mar que de tão raso
Revelava meu próprio casco
Prendeu-me ao fundo por descaso
— navio na garrafa, frasco —
Nua maré baixa
Vestido d’água maré alta
Transparente de qualquer modo
Afogada de mar, sufocada de ar
Só sobrou-me a carcaça
Que do tempo por trapaça
Enferruja, corrói e dói 
Com a maresia úmida e salgada
Que já traguei da tua boca
S/ua
O/utrora
S/ua

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