quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Tenham uma ótima quinta-feira, já quase sexta, ainda bem.
Deixo aqui alguns poemas de Ferreira Gullar, escolhido para a Academia Brasileira de Letras.
Espero que gostem, amanhã tem mais.
Grande abraço,
Miriam

Poemas de Ferreira Gullar

O poeta maranhense Ferreira Gullar foi o escolhido para ocupar a cadeira 37 na Academia Brasileira de Letras (ABL),  divulgado aqui na página, dia 13.

FALAR

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

 
O QUE SE FOI

O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

MAU DESPERTAR

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

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