domingo, 25 de maio de 2014

Olá meus amigos, tenham um excelente domingo.
Segue o conto A Bruxa do Ribeirão, escrito em 2013 para o Dia das Bruxas, mas acabei me esquecendo, e a história ficou arquivada.
Bem segue em duas partes, espero que gostem.
Grande abraço,
Miriam

A Bruxa do Ribeirão

    — Venham por aqui meus irmãos, vamos até a casa dela, hoje esse monstro não escapa  de nós! – Gritava um dos pescadores, que evocava os demais do vilarejo à caça a uma suposta bruxa.

— E se ela nos amaldiçoar e depois sair voando, como iremos pegá-la? – Disse outro pescador, que estava morrendo de medo.

— Psiu, silêncio, com toda essa algazarra a mulher irá escutar e fugir, temos que ser cautelosos! – Falava a liderança da perseguição, um pescador moreno e novo e um líder nato; homem que estava disposto a tudo a pegar a tal feiticeira a qualquer preço.

O grupo era formado por 10 pessoas, entre pescadores e suas mulheres, armados de paus, facas, foices e cordas e só tinham uma coisa em mente, prender a bruxa da ilha. Então, prosseguiram sorrateiramente pelas ruas da pequena vila em busca de uma mulher que há dias era acusada por bruxaria. A moça mudara-se para a vila há pouco tempo e nunca conseguiu boa interação com os moradores, principalmente pelas mulheres, tanto as solteiras como as casadas, que desde o início sentiam certa inveja dela.

— Rápido pessoal, ao chegarmos a casa, bateremos na porta com delicadeza, em silêncio, para que ela não perceba que a levaremos para julgamento. — Orientava o líder dos pescadores.

O grupo então apressou o passo e silenciosamente já estava quase na casa da procurada, que foi cercada.

Era uma casa que destoava das demais. Em madeira de cor vermelho, a pintura sobressaia e a tinta parecia viva, tornando o imóvel assustador. Ao redor, árvores altas e de troncos grossos e tortos, cujos galhos, ao vento, tornavam as árvores monstruosas. Uma das mulheres se benzeu e estremeceu de medo com o cenário. A casa da suposta bruxa tinha vida própria.

O líder bateu na porta e gritou pelo nome da mulher, conhecida como Walquíria.

Sem saber o que estava ocorrendo, a moça, com um lindo vestido verde reto e comprido, com fitas à cintura e o cabelo preso em trança abriu a porta para verificar o que acontecia. Mal a porta se abriu, o líder do grupo puxou o braço da moça, fazendo-a sair rapidamente para a rua, um ato bruto que a deixou sem nenhuma atitude.

Espantada com tudo aquilo, a mulher olhou para todos sem entender o que se passava.

— O que é isso? O que fazem essa hora na minha casa? O que está havendo? —  Perguntou a moça que aparentemente não oferecia risco a ninguém.

— Vamos levá-la, você ficará aguardando julgamento por seus crimes. – Disse o líder à mulher.

— Epa, espera aí! – Exclamou um dos pescadores. Acho melhor acabarmos logo com isso e fazermos nós mesmos o julgamento e a condenação. Já temos provas de que é ela a bruxa e temos que queimá-la, só assim conseguiremos ficar livres desse mal. — Falava convicto outro pescador, ele era de meia-idade e com aparência de gente sofrida.

— Não podemos fazer justiça pelas próprias mãos, isso é contra a lei, afirmava o líder.

— Queremos a nossa justiça, depois de tudo o que vem acontecendo aqui logo depois que ela se mudou para cá, retrucou mais outro pescador.

Assim a gritaria foi tomando espaço e a acusada no meio do círculo assistia aquele povo de gente humilde, com pouca cultura, mas que estavam decididos a fazer justiça com as próprias mãos se fosse preciso.

— Agora é a vez de nós mulheres darmos a nossa opinião, e queremos justiça aqui e agora! — Falava a mulher mais velha do grupo, deveria ter mais de 50 anos, estava descabelada e trajava um vestido marrom até os pés; ela dizia coisas estranhas e apontava para a bruxa.

— Vamos amarrá-la, ela tem que pagar por seus crimes, dizia a tal mulher enfurecida.

O grupo foi chegando mais perto da bruxa, que pela primeira vez se sentiu encurralada.

 O que vocês estão tentando fazer é contra a lei, não podem me prender e me matar. — Falava a bruxa, cujas faces muito brancas estavam avermelhadas de pavor, e seus olhos arregalados pareciam saltar do rosto.

O grupo foi chegando mais perto da moça e tentavam agarrá-la. A mulher se esquivava, mas cercada, sabia que era inútil fazer qualquer coisa. Então ela fechou os olhos e se concentrou.

De repente uma névoa começou a baixar rapidamente. A noite estava clara e quente e o nevoeiro ficou denso, tomando conta do vilarejo.  

— Meu Deus, o que é isso? — Gritou apavorada uma das mulheres do grupo. E as pessoas ficaram olhando ao redor e a imagem de todos foi ficando cada vez mais difícil tamanha a névoa que pairava.

— Depressa, pega a bruxa! – Disse o líder esticando a corda na mão.

Nisso Walquíria se desvencilhou da roda empurrou uma das mulheres jogando-a ao chão e abrindo espaço no círculo, correu rapidamente e sumiu no nevoeiro.

— Vamos, atrás dela, não a deixem fugir, temos que pegá-la, gritava o pescador que liderava o grupo.

Mas a bruxa correu sem olhar para trás e sumiu aos olhos de todos, se embrenhando na mata.

         Com as tochas nas mãos, o grupo correu ao encalço da bruxa, entrando na mata e tentando seguir o rastro da moça. Estavam com medo e caminhavam cautelosamente.

         A bruxa sentiu-se segura naquela noite, mas o que fazer? Com o passo agora normalizado a moça foi ter no lago, sentou-se na beira e debruçou-se para beber água. Ao olhar seu reflexo na água a mulher começou a gargalhar e gargalhar e sua face foi se modificando, e a água do lago começou a turbilhar...

         ...

         Anna, toda suada, desperta bruscamente pelo sonho que tivera pela terceira vez, parando exatamente no turbilhar da água do lago. Senta-se na cama sem forças e espera o coração voltar a bater normalmente. O que será tudo isso? Pensava Anna, sem ter a mínima ideia da situação.

        
Esse sonho não pode acontecer por três vezes, tem algo errado, preciso descobrir quem é essa bruxa que as pessoas queriam pegar e aquele lugar. Será que a mulher acusada de bruxaria sou eu? Será que tive um passado tão ruim? Anna divagava durante o seu desjejum.

         Largou o café e foi procurar em seus álbuns fotos sobre o lugar do sonho. Anna sabia que aquelas casas eram familiares e se perguntava se não havia estado em visita durante alguma viagem que fizera. Em vão, em suas fotos não encontrara nada e o mistério permanecia em sua mente. Destinada a encontrar o lugar de qualquer jeito, recorreu à internet e foi aí que Anna achou algumas fotos parecidas com as de seus sonhos, e não estava tão longe de sua casa. Aproveitaria as férias próximas e desembarcaria em Santa Catarina, em Florianópolis para visitar e tentar descobrir se era lá que ela vislumbrava nos sonhos.

E assim aconteceu...

         No dia seguinte à sua estadia, Anna alugou um carro e foi visitar a capital catarinense. Mesmo encantada com a região, se informou sobre o Ribeirão da Ilha, pois era desse lugar que emanava seus sonhos.

         Chegando a seu destino, Anna ficou surpresa com a paisagem, pois era exatamente igual ao que sonhara, as casinhas coloridas em frente ao mar, a pracinha com a igreja ao topo, Anna ficou estarrecida de emoção. Foi seguindo pela rua da costa, caminhando lentamente e olhando o visual. Parou defronte ao mar e começou a sentir uma vibração estranha, e seus pensamentos se voltaram para o local, algo que nunca sentiu assim antes em lugar algum.

— Você está se sentindo bem? — Indagou um rapaz que passeava pela praia e viu que Anna parecia desfalecer.

         — Estou sim, obrigada. — Virou-se ao homem, abrindo um sorriso em gratidão.

         — O que a trouxe até aqui? Você tem algum parente no Ribeirão? — Questionou o homem, que olhava fixamente para Anna.

         — Bem, você me parece uma pessoa bem atenciosa e vou contar-lhe um segredo. É que eu sonhei com este lugar, o estranho é que o sonho não era recente, pois as roupas eram de outro século, mas as casas não estão tão mudadas assim, as ruas são iguais, mas estão asfaltadas e a igreja, o cemitério e a praça estão no mesmo lugar do sonho, mas agora com um acabamento mais moderno, um pouco diferente de antes.

         — Nossa, que coisa esquisita! — Retrucou o jovem.

         Anna se apresentou ao homem e perguntou se ele não poderia ajudá-la a desvendar o mistério que a atraíra para lá, pois teria de pesquisar e como não conhecia a região, qualquer ajuda seria bem-vinda.

         — Posso ajudá-la sim, pois também estou em férias, sabia? Meu nome é Arthur, e minha família é tradicional da ilha, de antigo pescadores que vieram de Portugal, desembarcaram em Santa Catarina e escolheram o Ribeirão para viver. Assim aconteceu com várias famílias de imigrantes, é por isso que tem muitos descendentes de portugueses por aqui, explicou o homem.

         — Anna escutava tudo com muita atenção e estava entusiasmada em ter aquela pessoa maravilhosamente simpática em sua ajuda. O rapaz tinha uma beleza morena de cabelos e olhos castanhos, alto e um sorriso de fazer qualquer mulher vibrar. Que férias, mesmo que eu não encontre nada, só a companhia dele já valeu a viagem! Pensava Anna, ao discretamente olhar o rapaz de cima em baixo.

         Os dois resolveram sentar-se e admirar a praia. Estava um lindo dia de maio, sem frio e com um sol aconchegante.

         Arthur convenceu Anna a hospedar-se no Ribeirão, para facilitar a pesquisa sobre a região e, claro, para ficar mais perto dela.

         Instalada agora em uma pousada, Anna sonhou novamente com as pessoas na porta daquela casa gritando e tentando agarrar a suposta bruxa, o nevoeiro e a beira do rio.

         Anna acordou molhada de suor e aterrorizada, mais uma vez. Tentou lembrar-se dos rostos das pessoas, mas em vão. No dia seguinte, Arthur foi buscá-la para conhecer uma senhora muito querida na ilha.
 
Aguardem a continuação...

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