segunda-feira, 26 de maio de 2014

Olá amigos, vamos a continuação e final do conto A Bruxa do Ribeirão, e espero que tenham gostado da história.
Grande abraço a todos,
Miriam

Continuação da Bruxa do Ribeirão

...

Anna acordou molhada de suor e aterrorizada, mais uma vez. Tentou lembrar-se dos rostos das pessoas, mas em vão. No dia seguinte, Arthur foi buscá-la para conhecer uma senhora muito querida na ilha.

         — Olá Anna, vou levá-la para conhecer dona Clara. Ela já curou muita doença receitando chás de ervas medicinais, disse Arthur.

         Anna agradeceu e partiu com Arthur para a tal senhora.

         Estacionando em frente ao imóvel, Anna sentiu uma vibração e uma leve tontura.  Fechou os olhos e recordou seus sonhos, vendo a bruxa na porta daquela casa. A casa está agora diferente dos sonhos, sem as árvores, mas tinha certeza de que era essa. Lentamente caminhou e tocou a parede e a porta de entrada, um calafrio a fez arrepiar-se do cabelo aos pés.

         — O que foi Anna? Você está se sentindo bem? — Disse Arthur, ao ver que a moça empalideceu.

         — Sim, só que vi esta casa várias vezes em meus sonhos, consigo vislumbrar o local e lembrar-me dela, disse Anna.

         Os dois entraram. A idosa caminhava lentamente e os conduziu até o sofá. Era uma mulher com feições bonitas, havia de ser linda quando jovem, pensava Anna. A senhora sentou-se e fez sinal para que Anna ficasse ao seu lado. Pegando na mão da moça dona Clara disse que morava na casa desde o nascimento. Não se casou, pois cuidou dos pais e como ajudava o povoado com as ervas, o tempo foi passando e ela acabou ficando solteira.

         Anna contou seus sonhos para Clara, que ficou boquiaberta com tudo aquilo.

         — Não sei o que dizer, mas sei que em outro século, logo no início quando os imigrantes se estabeleceram aqui, houve uma história de uma mulher que fazia bruxaria. Sei sim que foi perseguida, mas não sei o final disso, se foi morta ou não. Diz a lenda que era uma moça lindíssima e que atraia crianças para sua casa e as crianças depois desapareciam, explicava dona Clara.

         —Anna escutava tudo em silêncio. Fechou os olhos e seus pensamentos viajaram longe, recordando-se das cenas dos sonhos. Anna levantou-se e tocou a parede da casa, e pedindo permissão, foi andando pelo imóvel na ânsia de encontrar alguma coisa. Com os olhos semiabertos, ela conheceu os cômodos e tentou achar algo, não sabia o que, mas tinha a certeza de que algum objeto seria familiar. Era uma sensação inusitada. Sem entrar no último quarto, que estava trancado, despediram-se de Clara e partiram. Os dois aproveitaram a tarde para almoçar e se conhecer melhor. Uma atração os unia e um carinho múltiplo foi surgindo entre eles.

— Senti algo estranho naquela casa Arthur, além de uma vibração, é como se eu conhecesse bem o lugar e que tivesse pertences lá; não sei explicar o que é. Mal Anna terminou de falar e Arthur puxou-a para si, beijando-a ardentemente. E ficaram abraçados e curtindo o visual da praia, na presença de olhos discretos de pescadores da região.

Os beijos e abraços se prolongaram à noite, quando se encontraram para jantar. Anna estava radiante com tudo que naturalmente acontecia entre eles. E assim, a primeira noite de amor os uniu ainda mais.

Na manhã seguinte, Anna estava mais disposta ainda a vasculhar seu passado, que tinha certeza pertencer àquele lugar.

Arthur a levou até a casa de mais pessoa, uma mulher muito procurada pelas jovens da ilha, pois tinha a aptidão de desvendar o futuro; entre outras palavras, era uma cartomante local chamada Fátima.  A mulher além das cartas nas horas vagas era a cartorária da ilha.

— Há, você é muito bonita e ao cumprimentar Anna, a cartomante sentiu uma vibração estranha, algo que há muito não sentia com ninguém. Os dois se acomodaram na sala.  

— Você é uma pessoa especial, minha cara, já viveu aqui no Ribeirão, sabia? Posso sentir isso. Algo sinistro a fez sair da ilha, uma energia muito forte, disse Fátima ao apertar a mão de Anna. Porém, ao jogar as cartas, sua fisionomia tornara-se estranha, e Fátima parecia não querer revelar o que via no jogo, pois nada de mais disse à Anna, que percebeu ter algo errado, a mulher estava sim escondendo o seu passado. E sem mais nada a revelar, os jovens partiram da casa da cartomante e foram verificar registros antigos no cartório e certidões na prefeitura e não encontraram nada que fincasse Anna à ilha.

Decepcionada a moça decidiu terminar a busca. Iria então aproveitar mais as férias conhecendo a capital catarinense e também o jovem Arthur.  Para ela, os sonhos deveriam ser fruto da imaginação de filmes ou de livros.  

Depois de um dia exausto, caiu na cama e pegou no sono. E o terrível sonho estava de volta...

Rodeada pelo grupo, o nevoeiro começou a cair e a moça viu uma possibilidade de escapar correndo mata adentro.

Despistando os perseguidores a moça chegou até o lago. Cansada, sentou-se na beira e debruçou-se nas águas límpidas e claras. Olhou fixamente e viu um rosto nas águas. Era uma bela mulher loura de cabelos longos até a cintura. A mulher não se parecia com a Anna de hoje, morena e de cabelos curtos, mas pela primeira vez sentiu-se no sonho, sabendo que a jovem era ela sim, num corpo diferente, mas com o mesmo espírito. A bruxa começou a gargalhar, a rir para si.

A feiticeira então se levantou e esticou os braços para o alto e abaixou-os rapidamente ao chão, fazendo com que o nevoeiro ficasse mais intenso e como estivesse empurrando algo no ar, afastou, com isso, o grupo de pescadores para bem longe dali. A mulher continuou caminhando na mata, deu a volta acima do morro, e fez um caminho pouco frequentado, diziam os antigos que era um trajeto mal assombrado. Crendices de pescadores, mas a bruxa atravessou sem medo dando a volta e retornando, por um túnel secreto, até a sua casa. Ela caminhava sem fazer barulho e sem usar tochas, pois conhecia, mais do que ninguém, cada pedaço daquela trilha subterrânea. Devagar chegou até um de seus quartos, levantou a tampa em baixo do tapete e entrou na casa. Tudo estava em silêncio, pois o grupo estaria muito longe dali e andando em círculos no lago, um feitiço jogado pela mulher para que não a seguissem.

Andando cautelosamente e apagando as tochas da casa, Walquíria se aproximou de um quarto, o terceiro e último da casa, e o único trancado. Abriu a porta devagar. Caminhou até uma pequena jaula escondida por um pano, que ao ser retirado, desvendou uma criança pequena deitada entre as grades. O menino, que não deveria passar de dois anos, estava vivo e dormindo. A criança magra e desnutrida foi retirada da jaula.

— Hoje é seu dia de sorte, disse a bruxa para o pequeno. Vou deixá-lo na mata, e assim o grupo pensará que você estava perdido e me deixará em paz. E levou o garoto.

O grupo de pescadores encontrou o menino na mata. Naquela noite, pelo menos, a bruxa não seria mais perseguida, mas os homens e mulheres do vilarejo estavam sedentos por justiça pelas próprias mãos e Walquíria sabia que retornariam para matá-la, então, agiu rápido retornando a sua casa novamente para pegar o que fosse necessário e desaparecer da ilha. Lá, a bruxa retirou seus livros, poções, mantos, taças, adagas e tudo o mais utilizado em suas magias e rituais, guardando seus pertences mágicos em um baú que ficava escondido no túnel. Também ela retirou dali cachos de cabelos e roupas de outras crianças, enterrando tudo no túnel. Fez tudo isso no intuito de retornar anos depois, quando os moradores já não se lembrassem mais dela. 

Então a bruxa pegou seus utensílios de maior valor e partiu para a estrada...

... Com o coração saindo pela boca, Anna acordou com um salto, encharcada de suor e de tristeza, pois agora a verdade se afirmou; ela sabia que era a bruxa e que nada poderia fazer. Tristemente e amargurada por tudo aquilo, deixaria o passado partir de seu ser, assim como apareceu.

E assim Anna começou a sentir-se mais leve e os pesadelos aos poucos foram desaparecendo. Anna terminou as férias em Floripa e retornou à capital paulista ...

... Depois de dois anos estava casada com Arthur e os dois felizes com a chegada da primeira filha, Walkiria. Tudo ia bem entre eles até o dia em que a menina desapareceu.

Numa manhã Arthur saiu cedo como de costume para trabalhar e Anna dormia com o bebê. Ao final da tarde Arthur retornou do serviço e encontrou Anna atordoada e desesperada dizendo que a menina havia sumido e ela não sabia o que havia acontecido.

Arthur e Anna deram queixa à Polícia, contrataram um detetive para investigar o caso, mas não havia explicação sobre o sumiço do bebê.

Anna já não era mais a mesma, emagreceu e perambulava pela casa. Arthur a acusava sempre, fazendo- a sentir-se culpada por tudo.

Eles moravam num prédio antigo e sem câmeras, não puderam descobrir o que aconteceu de verdade.

Anna andava pelas ruas com a foto da filha, na ânsia de que alguém pudesse conhecer o bebê.

Fora chamada a depor várias vezes, pois seu depoimento era duvidoso e ninguém mais entrou no apartamento desde a partida de Arthur ao serviço. Ela tinha de dar conta da criança.

Arthur contratou um advogado para Anna, mas o mesmo desistiu da causa.

Com a situação Anna transformou-se em outra pessoa. Estranha e solitária, Anna se desgastava a cada dia.

Uma briga e mais uma acusação acabaram de vez com o casamento e Arthur já não tinha mais esperanças de reencontrar o bebê, desaparecido há dois anos.

O casamento chegou ao fim e Arthur se mudou de São Paulo.

Era noite quando Arthur pegou a estrada e dirigiu até sua cidade natal.

Chegando ao Ribeirão da Ilha pela manhã, Arthur foi até a praia.

Calmamente se aproximou de Fátima que caminhava tranquilamente com uma criança pela mão. Arthur se aproximou e beijou as duas, pegando a criança no colo.

Arthur olha para Fátima e comenta: demorou muito tempo meu amor, mas conseguimos.   

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