terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Olá amigos. Último dia do ano! Nossa, quanta coisa aconteceu e realizamos durante os 365 dias, não é mesmo?
Finalizo 2013 com mais uma história “Caminho”, que trás esperança para Lenita.
Bem, espero que gostem do conto.
Tenham uma passagem maravilhosa e um Feliz Ano-novo!
Desejo tudo de bom a todos vocês, e que sejamos abençoados no ano vindouro.
Grande abraço,
Miriam

Conto
Caminho

Pessoas rabugentas estão em todas as partes do mundo, assim como os avarentos, estes são os piores, pois alteram a balança do universo, ou melhor, o pêndulo de sustentação, que faz com que o planeta consiga balancear suas energias de si próprio como de todos os seres que aqui habitam, sendo o Homem o único que causa transtornos a essa balança.
       
A rabugenta que conheci era uma senhora que vivia sozinha, era viúva, ela morava em um prédio pequeno e sem nenhum conforto, não que isso fosse um problema para ela, mas no fundo, também era alvo de suas reclamações.
No edifício, era conhecida também como “a mulher das lamentações”, porque nada estava bom e sempre tinha alguma coisa a se queixar.
Mesmo com esse temperamento, Helena, ou Lenita - nome escolhido por sua mãe, leitora do escritor Júlio Ribeiro e o nome foi do romance A Carne - tinha amigos já não eram muitos como no passado, mas ainda restavam alguns que gostavam dela; acho que sentiam pena.
        — Lenita querida, o que fará nas festas de final de ano? — Ligou Fátima, para convidá-la a ficar em sua casa.
— Amiga, agradeço por seu convite, mas passarei o Natal e o Ano-Novo aqui mesmo.
        A amiga entendeu que ela não queria ver ninguém, bem, todos os anos era a mesma coisa e há anos Lenita ficava em casa sozinha, reclamando da vida, desperdiçando o tempo precioso em vão.
        Naquela noite de Natal, após a Missa do Galo Helena foi dormir. O relógio do criado-muda marcava 2 da manhã, horário em que levantava todas as noites para beber água. A vida dela era uma rotina até mesmo na hora do descanso.
        — Preciso beber água, falava a mulher, mas em tom de reclamação, e mesmo assim foi até a cozinha. Quando retornava para o quarto, Lenita teve uma surpresa inesperada.
        — O que está acontecendo? — Indagou a mulher, que se encostou no corredor de acesso, ao se deparar com três portas diante de si.
        Ela esfregou os olhos e ficou parada, sem reação alguma, pois o apartamento tinha dois quartos e agora diante dela estavam as três portas.
        — Meu Deus, isso só pode ser sonho! — Lenita voltou para a cozinha e ficou lá por alguns minutos, sem saber o que fazer. Ela sabia que teria que retornar ao quarto e assim o fez.
        A mulher saiu da cozinha e parou imóvel, olhando para as portas. Um desespero tomou conta de seu ser e ela não tinha a quem recorrer, teria que sozinha, fazer a escolha certa, assim como muitas que fizera durante toda a sua vida.
        Respirou fundo e deu os primeiros passos, ela abriria a porta do meio, sim, essa seria a entrada de seu quarto. E assim o fez girando a maçaneta até que a porta se abrisse. Ao entrar no quarto, a porta se fechou. Helena correu e tentou abri-la, em vão.
        Lenita fechou os olhos e ficou de costas para o quarto, parada e sem nenhuma atitude. Lentamente ela foi se virando de tal maneira, que se machucou na maçaneta, pois o corpo estava “colado” a porta. Lentamente a mulher foi tomando fôlego e coragem e abrindo os olhos.
        Sem estrutura emocional, Lenita foi escorregando ao chão, pois não acreditava no que via. No entanto, levantou-se rapidamente e girou a maçaneta várias vezes, batendo na porta e pedindo socorro. Ninguém iria em sua ajuda, ela teria de encarar o que viesse pela frente.
        E Lenita ficou observando o que se passava, sem compreender. O quarto não era o dela, e estava no meio do nada, e adiante, um caminho a percorrer.
        A mulher, mesmo sem forças, tinha de enfrentar aquele desafio.
      — Meu Deus, eu te suplico, porque tudo isso está acontecendo comigo? — O que o Senhor quer de mim? E sem resposta alguma, a mulher enxugou as lágrimas e se preparou para a caminhada.
        Ela se desgrudou da porta e foi andando devagar. Estava escuro e o estreito caminho com pouca iluminação. A mulher deu mais uns passos e ao olhar para trás, a porta estava tão longe que mal ela podia ver. — Como isso é possível? Indagava, eu nem desgrudei direito da porta e ela está quase desaparecendo! E uma voz interior silenciou seus pensamentos, para que ela pudesse relaxar a cada passo.
   No caminho, juntaram-se mais três mulheres com ela e todas prosseguiram lentamente para algum destino. Mais adiante, o lugar ficou mais claro e Lenita observou as mulheres, que falaram com ela. A mais nova era cheia de vida, falante, risonha, linda e feliz. Já a mulher balzaquiana tinha uma fisionomia ranzinza, não falava muito e as poucas palavras eram para reclamar de alguma coisa. Ao olhar para a terceira, esta era uma senhora de cabelos brancos, pálida, magra, sem vida e sem forças até para falar, ela apenas olhava e caminhava; sua expressão era de tristeza. Lenita se arrepiou por inteiro, mas todas continuaram a caminhada.
   A mulher mais jovem percorria cantando, uma melodia alegre e saudável. Helena tentou conversar com ela, mas recebeu um cutucão e um sinal de não da mulher balzaquiana.
        A cada passo, o caminho tornava-se diferente. De totalmente escuro, o percurso ficara mais bonito com lindas árvores e pássaros aos galhos. O caminho cortava uma cidade. Pessoas acenavam para a mulher mais nova e mandavam beijos, eram seus amigos e parentes. Todos tinham suas vidas e a cidade também, e nada interferia no caminho. Era como se elas estivessem dentro de um brinquedo, aqueles montáveis com trilho de trem e cidade ao redor. A sensação era essa.
        Ao olhar para trás, a porta do quarto desaparecera e Lenita não mais conseguiu ver sua casa. Isso a deixara apreensiva, pois viu que o caminho estava chegando ao fim e se aproximavam de uma casa grande, bonita e com a natureza ao redor.
       
As quatro mulheres se aproximaram dessa casa e a porta da rua já estava aberta. Entraram e o local não tinha móveis, nem quadros, apenas paredes brancas e muito limpas. O chão era a continuação do caminho, que as levou até uma imensa sala. Lá aguardavam algumas pessoas, uma delas olhou para as mulheres e falou que todos passariam por uma entrevista e que teriam de aguardar em silêncio, e assim elas sentaram e esperaram a vez.
        Lenita viu uma mesa e cadeiras e um homem se aproximou. Era um senhor de bengala, chapéu e muito bem vestido. Era magro, com cabelos grisalhos e sem barba.
     Durante o tempo de espera, Lenita absorveu-se em seus pensamentos e nem percebeu que não havia mais ninguém, apenas as quatro.
        O senhor fez sinal e pediu para que todas fossem até ele.
As mulheres sentaram e o homem pediu para que a mais jovem contasse a sua vida.
        Ela era brilhante, cheia de ideias, vigorosa e amante do viver. Na infância e na adolescência, também tivera momentos de tristeza, de incompreensão porque ela tinha um espírito livre e aventureiro. Fizera muita coisa na juventude e ela preservava, acima de tudo, a sua liberdade. Porém, casou-se e teve um filho e a vida para ela foi se modificando e tornando-se rotineira e chata.
        — Ela teve um filho! Admirou-se Helena, pensando no seu que não o via há alguns anos, após uma briga quando ambos pararam de se falar. E Lenita começou a chorar de saudades, não percebendo que a jovem terminara sua conversa. O senhor nada falou apenas fez sinal para a mulher de meia-idade.
        E assim, esta também contou sobre seus acontecimentos. De quando rompeu com o único filho e não mais foi procurá-lo, motivo de tristeza do marido, que faleceu com essa mágoa. Das reclamações de tudo na vida, de morar em um lugar que não gostava, e por aí foi a lista de insatisfações e das coisas mesquinhas, entre uma infinidade de fatos desagradáveis.
       O senhor fez com que a mulher terminasse e também nada falou a respeito de tudo o que ouviu, apenas fez um sinal de que havia terminado as entrevistas.
        — Mas como? A senhora e eu, não falaremos? — Questionou Lenita.
     — Acho que você não entendeu ainda o porquê está aqui. — Respondeu o senhor. E com um estalo de dedos, as três mulheres ficaram com a fisionomia de apenas uma, de Lenita. — Será que agora você compreende? — Disse-lhe o velhote.
        — Lenita estava boquiaberta e gaguejou ao falar. Eu tinha suspeitas, pois as histórias de vida se pareciam com a minha. Bem, sendo assim, faltou a velhota. Eu queria saber sobre...
       — Psiu, fez o senhor, balançando a cabeça um não e com o dedo na boca, sinal para que ela ficasse quieta. Digo-lhe que até agora você ainda não compreendeu. — Falou já sem paciência o homem. — Você com esse temperamento arruinou muito de sua vida.
        — Então, gritou Lenita, querendo saber sobre o futuro. O que tem a se explicar a senhora?
   
    — Nada, disse-lhe o velhote, comandante do karma humano e conhecedor de toda a verdade da humanidade. A senhora é o seu futuro, e ela está aqui para que você veja como será o seu fim, caso você não modifique o seu presente. Olhe bem para ela e reveja se você quer terminar os seus dias na terra desta forma porque ainda há tempo de mudanças, respondeu o homem. Sempre a esperança é apresentada ao ser humano. O caminho certo de sua vida é você quem o faz, finalizou o senhor.
        Lenita virou-se para a senhora, que estava com a aparência de mais sofrimento e pior do que antes durante a caminhada e se espantou.
        Depois disso, o homem pediu que todas se retirassem, pois o tempo se esgotara e elas deveriam voltar.
        No caminho, as quatro voltaram juntas, mas na metade, a jovem se despediu e depois a balzaquiana. Lenita terminou somente com a velhota. Antes de chegar à porta de seu quarto, a senhora fez um sinal para que ela refletisse e acenou um adeus.
...
        Ainda era muito cedo quando Lenita acordou toda suada e sentindo-se exausta. Permaneceu na cama sem forças e ficou refletindo sobre tudo o que passara durante a madrugada.
        Num estalo, saiu da cama e tomou um banho. Comeu alguma coisa rapidamente, pois tinha pressa; sabia que não podia desperdiçar mais o seu tempo.
        Era dia 31 de dezembro. Lenita chamou um táxi e foi até a casa do filho. Essa era a sua prioridade.
        As outras coisas, sim, ela corrigiria ainda no ano vindouro.

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