domingo, 30 de dezembro de 2012


Bom dia. Segue o conto “O homem que espalhou o deserto”, de Ignácio de Loyola Brandão. Importante texto que serve de reflexão sobre a prática danosa da derrubada de árvores indiscriminada, uma tendência mundial de devastação da natureza.

O homem que espalhou o deserto
Ignácio de Loyola Brandão

Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pouco, apesar do dia-a-dia, constante, de manhã à noite.
Mas o menino cresceu, ganhou tesouras maiores. Parecia determinado, à medida que o tempo passava, a acabar com as folhas todas. Dominado por uma estranha impulsão, ele não queria ia à escola, não queria ir ao cinema, não tinha namoradas ou amigos. Apenas tesouras, das mais diversas qualidades e tipos. Dormia com elas no quarto. À noite, com uma pedra de amolar, afiava bem os cortes, preparando-as para as tarefas do dia seguinte. Às vezes, deixava aberta a janela, para que o luar brilhasse nas tesouras polidas.
A mãe, muito contente, apesar de o filho detestar a escola e ir mal nas letras. Todavia, era um menino comportado, não saía de casa, não andava em más companhias, não se embriagava aos sábados como os outros meninos do quarteirão, não freqüentava ruas suspeitas onde mulheres pintadas exageradamente se postavam às janelas chamando os incautos. Seu único prazer eras as tesouras e o corte das folhas.
Só que, agora, ele era maior e as árvores começaram a perder. Ele demorou apenas uma semana para limpar a jabuticabeira. Quinze dias para a mangueira menor e vinte e cinco para a maior. Quarenta dias para o abacateiro, que era imenso, tinha mais de cinqüenta anos. E seis meses depois, quando concluiu, já a jabuticabeira tinha novas folhas e ele precisou recomeçar.
Certa noite, regressando do quintal agora silencioso, porque o desbastamento das árvores tinha afugentado pássaros e destruído ninhos, ele concluiu que de nada adiantaria podar as folhas. Elas se recomporiam sempre. É uma capacidade da natureza, morrer e reviver. Como o seu cérebro era diminuto, ele demorou meses para encontrar a solução: um machado.
Numa terça-feira, bem cedo, que não era de perder tempo, começou a derrubada do abacateiro. Levou dez dias, porque não estava habituado a manejar machados, as mãos calejaram, sangraram. Adquirida a prática, limpou o quintal e descansou aliviado. Mas insatisfeito, porque agora passava os dias a olhar aquela desolação, ele saiu de machado em punho, para os arredores da cidade. Onde encontrava árvores, capões, matos, atacava, limpava, deixava os montes de lenhas arrumadinhos para quem quisesse se servir. Os donos dos terrenos não se importavam, estavam em via de vendê-los para fábricas ou imobiliárias e precisavam de tudo limpo mesmo.
E o homem do machado descobriu que podia ganhar a vida com o seu instrumento. Onde quer que precisassem derrubar árvores, ele era chamado. Não parava. Contratou uma secretária para organizar uma agenda. Depois, auxiliares. Montou uma companhia, construiu edifícios para guardar machados, abrigar seus operários devastadores. Importou tratores e máquinas especializadas do estrangeiro. Mandou assistentes fazerem cursos nos Estados Unidos e Europa. Eles voltaram peritos de primeira linha. E trabalhavam, derrubavam. Foram do sul ao norte, não deixando nada em pé. Onde quer que houvesse uma folha verde, lá estava uma tesoura, um machado, um aparelho eletrônico para arrasar.
E enquanto ele ficava milionário, o país se transformava num deserto, terra calcinada. E então, o governo, para remediar, mandou buscar em Israel técnicos especializados em tornar férteis as terras do deserto. E os homens mandaram plantar árvores. E enquanto as árvores eram plantadas, o homem do machado ensinava ao filho a sua profissão.

 

Conto retirado do livro Para Gostrar de Ler volume 8 – contos – 1991, página 42

 

Conhecendo Ignácio de Loyola Brandão

 

Ignácio de Loyola Lopes Brandão nasceu em Araraquara - SP, no dia 31 de julho de 1936, dia de Santo Ignácio de Loyola, filho de Antônio Maria Brandão, contador, funcionário da Estrada de Ferro Araraquarense, e de Maria do Rosário Lopes Brandão. Foram, ao todo, cinco irmãos: Luiz Gonzaga (1933), Francisco de Assis (1934 - já falecido), Ignácio, José Maria (1946 - já falecido) e João Bosco (1953). 

Inicia seus estudos na escola primária de D. Cristina Machado, em 1944, onde cursa o primeiro ano. No ano seguinte transfere-se para a escola da professora D. Lourdes de Carvalho. Seu pai, que chegou a publicar histórias em jornais locais e que conseguiu formar uma biblioteca com mais de 500 volumes, o incentivou a ler desde que foi alfabetizado. Fascinado por dicionários, chegou a trocar com seus colegas de classe palavras por bolinhas de gude e figurinhas. Mais tarde, esse fato acabou se transformando no conto "O menino que vendia palavras", primeiro a ser publicado pelo autor. 

Em 1955, inicia o curso científico, muito embora admita hoje que foi por engano. "Deveria ter me inscrito no clássico, mais apropriado para quem pretendia se dedicar a Humanas". 

A Folha Ferroviária, semanário da cidade de Araraquara, publica no dia 16 de agosto de 1952 uma crítica do filme "Rodolfo Valentino", primeiro texto de Ignácio. Dias depois, o jornal Correio Popular daquela cidade a reproduz. 
Dado o primeiro passo, o precoce escritor passa a escrever reportagens, críticas de cinema e entrevistas em outro diário de Araraquara, O Imparcial. Nele aprende a arte da tipografia, lidando com composição com linotipo, clichê em zinco e paginação em chumbo. Em 1955 inaugura a primeira coluna social da cidade. 

 

Obras do autor: 
Contos: 
Depois do sol, Brasiliense, 1965 
Pega ele, Silêncio, Símbolo, 1976 
Cadeiras proibidas, Símbolo, 1976 
Cabeças de segunda-feira, Codecri, 1983 
O homem do furo na mão, Ática, 1987 
O homem que odiava segunda-feira, Global, 1999 

Romances: 
Bebel que a cidade comeu, Brasiliense, 1968 
Zero, Brasília/Rio, 1975 
Dentes ao sol, Brasília/Rio, 1976 
Não verás país nenhum, Codecri, 1981 
O beijo não vem da boca, Global, 1985 
O ganhador, Glogal, 1987 
O anjo do adeus, Global, 1995 

Infanto-juvenil: 
Cães danados, Belo Horizonte Comunicações, 1977. Reescrito e publicado com o título "O menino que não teve medo do medo", Global, 1995. 
O homem que espalhou o deserto, Ground, 1989 


Viagens: 
Cuba de Fidel: viagem à ilha proibida, Livraria Cultura, 1978 
O verde violentou o muro, Global, 1984 

Relatos autobiográficos: 
Oh-ja-ja-ja (Diário de Berlim, inédito em português). Tradução de Henry Thorau. LCB, 1982 
Veia bailarina, Global, 1997 


Cartilha: 
Manifesto verde, Círculo do Livro, 1985 e Ground, 1989 

Crônicas: 
A rua de nomes no ar, Círculo do Livro, 1988 
Strip-tease de Gilda, Fundação Memorial da América Latina, 1995 
Sonhando com o demônio, Mercado Aberto, 1998 

Biografias: 
Fleming, descobridor da penicilina, Ed. Três, 1973 
Edison, o inventor da lâmpada, Ed. Três, 1973 
Ignácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, Ed. Três, 1974 

Antologia: 
Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão, organização de Deonísio da Silva, Global, 1994 

Traduções: 
Para o alemão: 

Null (Zero), Suhrkamp, 1979 
Kein land wie dieses (Não verás país nenhum), Suhrkamp, 1984 

Para o coreano: 
(Zero), Seto, 1990 

Para o espanhol: 
Cero (Zero), Galba, 1976 
El hombre que espandió el desierto (O homem que espalhou o deserto), Global - México, 2000 


Para o húngaro: 
(Zero), JAK, 1990 

Para o inglês: 
Zero, Avon Books, 1983 
And still the earth (Não verás país nenhum), Avon Books, 1984 

Para o italiano: 
Zero, Feltrinelli, 1974 
Non vedrai paese alcuno (Não verás país nenhum), Mondadori, 1983 
Vietat le sedie (Cadeiras proibidas), Marietti, 1983 

Adaptações: 
Para o teatro: 

Não verás país nenhum. Direção de Júlio Maciel, Fortaleza, Teatro José de Alencar, 1987 (baseado no romance homônimo) 

Para o cinema: 
Bebel, a garota-propaganda. Direção de Maurice Capovilla, 1986 (baseado no romance Bebel que a cidade comeu) 
Anuska, manequim e mulher. Direção de Francisco Ramalho, 1969 (baseado no conto Ascensão ao mundo de Annuska"). 

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Dica de cinema para o domingo

A Vida de PI

 

Ontem fui assistir A Vida de PI, filme maravilhoso sobre o naufrágio de um rapaz indiano que se vê só num bote salva-vidas com um tigre-de-bengala.

Tem cinema que está passando o longa em 2D, mas não vale a pena pois o filme é em 3D, tornando-o deslumbrante num cenário encantador.

 

A Vida de Pi

Título original: Life of Pi
De: Ang Lee
Género: Drama, Aventura
Classificação: 12 anos
EUA, 2012, Cores, 127 min.

Sinopse: Durante toda a sua existência, o jovem Pi (Gautam Belur/Suraj Sharma/Ayush Tandon/Irrfan Khan nas várias idades) viveu na Índia, num jardim zoológico administrado pela família. Leitor voraz, alimenta a sua curiosidade com tudo o que se relacione com hinduísmo, budismo e cristianismo, assimilando e tendo a mesma fé nas três religiões. Até que a família decide mudar-se com os animais para o Canadá e o navio em que viajam naufraga. Pi inicia então a maior aventura da sua vida, dando por si à deriva num pequeno bote salva-vidas com uma hiena, uma zebra de perna partida, um orangotango e um tigre-de-bengala. Apenas Pi e o tigre sobrevivem à primeira semana. Depois, partilham o mesmo bote durante 227 longos dias no mar. O filme foi baseado no romance de Yann Martel, vencedor de um Booker Prize e publicado em mais de 40 países.
Veja o trailler, acesse:

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