segunda-feira, 8 de outubro de 2012


João Maimona poeta africano

Para quem não conhece, hoje é dia de nascimento de um importante poeta africano, João Maimona, autor de várias obras. Achei interessante trazer um ícone da literatura africana, nossos irmãos de língua portuguesa.

João Maimona nasceu em 1955, em Quibocolo, município de Maquela do Zombo, na província de Uíge. Em 1961, refugiou-se na República do Zaire. Estudou Humanidades Científicas em Kinshasa e em 1975 ingressou na Faculdade de Ciências, regressando a seu país em 1976.
Dois anos depois, fixou residência em Huambo, onde se licenciou em Medicina Veterinária. É membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo e membro da União dos Escritores Angolanos.

Obras:
Publicou: Trajectória Obliterada (poesia,1985); Les Rose Perdues de Cunene (poesia,1985); Traço de União (poesia,1987,1990); Diálogo com a Peripécia (teatro, 1987); As Abelhas do Dia (poesia,1988,1990); Quando se ouvir o sino das sementes (poesia,1993) e Idade das Palavras (poesia, 1997).

Poesias:

AS MURALHAS DA NOITE

         A mão ia para as costas da madrugada.
         As mulheres estendiam as janelas da alegria
         nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

         Os dias namoravam sob a barca do espelho.
         Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
         E da chuva de barcos chegavam colchões,
         camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
         onde cantavam soldados de capacetes
         por pintar no coração da meia-noite.

         Eram os barcos que guardavam as muralhas
         da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar. 

MEMÓRIA


Baloiçando nos escombros de teu itinerário
saberás que os gados constroem estradas.
E quando a mão deslizar pela margem
das cicatrizes que se afundam na noite
saberás que a tua mão viaja para a
colina dos dias sem escombros
e saberás que no berço da noite jaz a luz
drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.


ARTE POÉTICA

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos. 

A SENTINELA VINHA


A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim.

A sentinela da porta
das portas do meu jardim vinha
à hora primitiva.

Chegava. Cuspia na minha relva.
Como para render homenagem
ao meu sangue. É tão fácil
fazer a retrospectiva!

A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta
do meu jardim. Cuspia na minha relva.
Enumerava as portas do jardim.
Perdido em declamações que acabavam
à porta das portas do jardim
não recordava os seu filhos. Suas trevas.
Seus caminhos.


Ó ANGOLA MEU BERÇO DO INFINITO

Era o seu poema. A porta das portas do jardim.
Ó Angola meu berço do Infinito
meu rio da aurora
minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
pelas terras obedientes de Maquela
(onde nasci)
pelas árvores negras de Samba-Caju
pelos jardins perdidos de Ndalatandu
pelos cajueiros ardentes de Catete
pelos caminhos sinuosos de Sambizanga
pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
onde os teus filhos comeram balas
e regurgitaram sangue torturado
onde os teus filhos transformaram a epiderme
em cinzas onde das lágrimas de crianças crucificadas
nasceram raças de cantos de vitória
raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
que a miséria aterrorizava?
que a ignorância acompanhava?
que inventariavas os mortos
nos campos e aldeias arruinados
hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos

(Angola meu fragmento de esperança)
deixai-me beber nas minha mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d'árvore esplendorosa.)

A TORRE DA NOITE

a Joana Malata


deixarei a semana forjar
raparigas de Natal
o Natal que se une à rochas.

deixarei amontoar em minhas

mãos dóceis
esqueletos do mar.

deixarei a torre a noite
chorar e esperar
o ar enchendo a morte do mar
pelos brinquedos do céu
até que os dias se unam às noites

e deixarei a folhar escutar
à porta fechada
a luz sombria da fornalha.

QUANDO VEJO AS MINHAS PERNAS

quando canto os seios da velha mulher de prazer
em mim nasce a noite da palavra que não diz

despeço-me do rosto solar do oceano que diz
quando algo cresce em areias de meu corpo

porquanto a submemória das plantas
quando as plantas se rompem na cauda da luz

e quando as vacas olham o rosto do pastor
um bando de crianças estende as misérias  do pastor

e assim saúdam as minhas mãos
os gritos cronológicos
dos seios da velha mulher de prazer.

lembro-me dos seios na noite do barco.
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Para quem gosta de pintura em tela, acontece exposição no Centro Histórico de Santos, no Palácio da Polícia.

Exposição Ateliê Mania das Artes 

A exposição Ateliê Mania das Artes, Fazendo Arte está no Espaço Cultural Dr. Paulo Bonavides, do Deinter 6, no Palácio da Polícia.
A exposição conta com 30 quadros em óleo sobre tela com temática e técnicas variadas, produção de alunos e artistas convidados do Ateliê e ficam expostas até dia 5 de novembro.
O Ateliê Mania das Artes é coordenado pela artista plástica Judite Mendonça e existe há 7 anos.

Serviço:
Exposição Ateliê Mania das Artes
Data: até dia 5 de novembro - de segunda a sexta, das 9 às 17h
Local: palácio da Polícia (Deinter 6) – Av. São Francisco, 136, Centro, Santos 
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ANJOS DA NOITE  



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