segunda-feira, 1 de outubro de 2012


Crônica
Na porta da Livraria Realejo

- Qual foi a brincadeira de ontem? Foi a lanterna? Perguntou a mãe à criança, uma doce menininha de uns quatro anos de idade.
Atravessavam a rua três mulheres, mãe, filha e uma outra moça, que poderia ser a tia, a amiga da mãe ou talvez uma colega de trabalho. E assim elas seguiram seu caminho.
-Tia, tem uma moeda?
Aquela voz veio de um menino aparentando 10 anos de idade, negro, pobre, com roupas surradas, mas nada disso parecia importar para ele, pois seu rosto era bonito, refletindo ser uma pessoa feliz, apesar da situação econômica.
Vi que o garoto estava com seu pai, um senhor com roupas bem usadas e outra criança, que deveria ser o irmão do menino que me pediu dinheiro, só que esse saiu da lanchonete ao lado da Livraria Realejo, com um salgadinho.
-Vamos logo que eu tenho muito a fazer, finalizou a cena o pai dos meninos.
Os três partiram. O senhor na frente e os irmãos dividindo o salgadinho atrás.
Eu, porém, recordei o meu “não tenho” que disse ao garoto; palavras que doeram meu coração, mas na verdade, eu estava mesmo sem nenhum dinheiro, pois tinha ido caminhando para fazer um curso na livraria e somente levava caderno e caneta.
E a vida continuava latejante na porta da livraria Realejo. Sábado de sol, uma hora da tarde e personagens iam e vinham pela Avenida Marechal Deodoro.
Pessoas de todas as idades, baixas, altas, magras, gordas, brancas, morenas. As roupas e sapatos, todos no seu tempo, na sua vida, retratavam o que são, a história de cada um.
De repente, entra rapidamente pela livraria um homem moreno e de meia-idade aos gritos...
-Nego Fogaça na parada, quem diria!
-Olha o Fogaça aí, gente!
Dizendo isso, o homem abraçou um senhor que estava sentado dentro da livraria lendo um jornal. Ele estava tão quieto que até me esqueci de sua presença.
-Fogaça, quanto tempo, o que você tem feito de bom? Continuava a puxar assunto o outro que chegara.
-Eu estou aqui fazendo hora, pois estou esperando um casal de amigos me ligar. — Dizia Fogaça. — Eles estão na Cidade desde domingo passado, estão num hotel, perto daqui do Gonzaga.
E o homem continuou falando com o amigo; assuntos que eu já não conseguia mais ouvir.
Os minutos passavam lentamente. Olhava para o meu relógio bege e pequeno em meu pulso e o ponteiro parecia não sair do lugar. Toda aquela calma me fez refletir sobre minha vida, meus entes queridos doentes, minha avó que partiu há três meses, meu trabalho fatigante; enfim, pensamentos que não param, não nos deixam em paz.
Eis que um barulho de freada de carro tira o meu sossego. Olhei rapidamente para a rua em busca de um atropelamento, tamanha foi a brecada. Vi que várias pessoas olharam também.
Levantei-me para ver melhor o que acontecia e para minha surpresa, nada de mal havia acontecido. Foi uma moça que tentava atravessar a rua empurrando uma senhora sentada em uma cadeira de rodas, nada mais.
Era uma jovem franzina e a cadeira parecia maior ainda se comparada à estatura da moça. A senhora não falava nada. As duas pareciam entender-se muito bem. 
Bem o barulho da freada foi porque os dois homens que estavam no carro pararam e fizeram os outros pararem também para a jovem passar. Sim, eles não se aborreceram que o sinal estava verde para eles e, com a maior educação e boa-vontade, acenaram para a moça, que toda sem graça, atravessou a rua com a cadeira.
Que exemplo de cidadania e cordialidade, fiquei feliz pela cena. Os homens, sem dúvida, mostraram que as pessoas merecem respeito.
De repente, me senti como a mulher invisível das histórias em quadrinhos, pois as pessoas passavam, me olhavam, mas não me viam. Não notavam ou não perceberam que eu as estava observando. Elas olhavam para a livraria, os livros, mas eu nada significava para elas.
Na porta da Realejo, a minha insignificância dava-lhes um significado, uma razão para existirem, personagens de minha crônica. 
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Morre o escritor Autran Dourado
Ganhador de diversos prêmios literários

Morreu na manhã deste domingo o escritor Autran Dourado. Ele tinha 86 anos e faleceu em sua casa, após passar três meses internado devido a problemas respiratórios. O escritor foi enterrado às 16h, no Cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro.
Waldomiro Freitas Autran Dourado nasceu em Patos de Minas, em Minas Gerais, em 1926. Ainda na juventude, recebeu seu primeiro prêmio literário pelo conto 'O Canivete do Diabo'. Estudou direito e trabalhou como jornalista, passando a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Entre suas dezenas de obras, a Ópera dos Mortos, de 1967, foi listado pela Unesco como uma das obras representativas da literatura mundial.
Autran Dourado publicou mais de 20 livros, entre romances, novelas e ensaios. Sua primeira obra, Teia, foi publicada em 1947. Também publicou Uma vida em segredo (1964) e Confissões de Narciso (1997).
Os Sinos da Agonia (1974), outro trabalho de sua autoria, foi adotado em exames de admissão de universidades na França. 
Dourado recebeu diversos prêmios ao longo de 60 anos de carreira, incluindo, em 2000, o Prêmio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa. Em 2008, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto de sua obra.
Dourado morava no Rio de Janeiro desde 1954. Entre 1955 e 1960, ele atuou como secretário de imprensa do presidente Juscelino Kubitschek, do que tratou no livro de memórias, Gaiola Aberta: Tempos de JK e Schmidt (2000). "A minha intimidade com JK ia a tal ponto que chegava mesmo ao ridículo de eu despachar com ele no banheiro", escreveu.

Fonte: Veja notícias 

Livro Ópera dos Mortos
Romance de Autran Dourado

Lançado originalmente em 1967 e incluído pela Unesco numa coleção das obras mais representativas da literatura mundial, Ópera dos mortos é um dos romances que melhor espelha a temática e o rigor formal de Autran Dourado. Sua narrativa é um mergulho no passado da família Honório Cota a partir de um velho sobrado que, em sua arquitetura barroca, já corroída pelo tempo, vai revelando o destino de seus moradores, marcados pela tragédia, numa cidadezinha no interior de Minas Gerais.
"O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o coração", adverte um narrador que aos poucos se confunde com a cidade onde reinava o coronel Lucas Procópio Honório Cota. Homem valente, que impunha respeito pela força e truculência, traços que passavam distante da personalidade de seu filho e herdeiro, João Capistrano. Melancólico, em luta permanente para se livrar do fantasma do pai, este fracassa na política — sua única chance de se impor na cidade — e passa o resto de seus dias trancado no sobrado que ergueu como uma espécie de monumento à família.
Com o correr dos anos, o casarão vai se impregnando cada vez mais dos fantasmas dos antepassados, que transformam tudo, de objetos a ambientes, em signos da morte. É neste ambiente opressivo e desolado que Rosalina, filha única de Capistrano, vai viver depois da morte de seus pais. Solteira, isolada do mundo e tendo como única companhia a empregada Quiquina, que é muda, ela passa seus dias fazendo flores de pano e vagando entre relógios parados e paredes carcomidas.
A rotina do sobrado vai ser alterada com a chegada de José Feliciano. Biscateiro, em busca de trabalho de cidade em cidade, Juca Passarinho, como é chamado por todos, vai aos poucos entrando no universo enigmático da casa e, principalmente, na vida da austera Rosalina.
Cruzando as vozes dos diversos personagens em comentários e contrapontos, Autran Dourado mostra que o título de seu romance não foi escolhido ao acaso. Como no gênero musical a que faz referência, é a certeza de um fim trágico e as emoções arquetípicas que percorrem esta Ópera dos mortos, uma meditação sobre os fantasmas do passado e, sobretudo, um exercício de virtuosismo narrativo.

Fonte: Editoras.com 

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