domingo, 8 de julho de 2012

Ontem assisti no Canal Combate, ao vivo, a tão esperada luta de Anderson Silva e o americano Chael Sonnen, com vitória, no segundo round, do Anderson, que se manteve campeão. Parabéns ao grande lutador brasileiro.
Infelizmente hoje é o último dia da FLIP. Veja a programação, o serviço de transmissão ao vivo pela CPFL Cultura e também os livros de Carlos Drummond de Andrade relançados para o evento, que brindo com a poesia José.
Está em cartaz o filme Beaufort, de Joseph Cedar. Veja a crítica feita por Francisco Taunay. 
Bem, por hoje é só, espero que gostem dos assuntos e aproveitem o domingão.
Amanhã tem mais novidades, não perca!
Grande beijo,
Miriam

Flip chega ao fim

Hoje é o último dia da Festa Internacional de Literatura (FLIP) que acontece em Paraty/Rio de Janeiro.
Acompanhe a programação:

10h: "Vidas em verso", com Jackie Kay e Fabrício Carpinejar. Mediação de João Paulo Cuenca.
11h45m: "A imaginação engajada", com Rubens Figueiredo e Francisco Dantas. Mediação de João Cezar de Castro Rocha.
14h30m: "Drummond – O poeta presente", com Armando Freitas Filho (em vídeo), Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo. Mediação de Flávio Moura.
16h30m: "Entre fronteiras", com Gary Shteyngart e Hanif Kureishi. Mediação de Ángel Gurría-Quintana.
18h15m: "Livro de cabeceira" – Convidados da Flip leem trechos de seus livros prediletos.

Drummond inédito

Além das palestras, a homenagem a Drummond aconteceu na forma de uma série de lançamentos na Flip. O principal deles é "25 Poemas da Triste Alegria", pela editora Cosac Naify. Trata-se de um livro de 1924 que Drummond nunca publicou. "Ele datilografou os poemas, pôs o sumário, encadernou. Mas conservou o livro inédito", explica o acadêmico Antonio Carlos Secchin.
A edição da Cosac Naify é um fac-símile da original, reproduzindo tanto os poemas datilografados quanto os comentários escritos pelo autor.
De acordo com Secchin, esses primeiros poemas não adiantam "praticamente nada" do que Drummond escreveria depois: "Ele conservou o livro inédito certamente porque não correspondia ao seu conceito posterior de poesia". Isso não impediu, no entanto, que Drummond emprestasse a publicação caseira a várias pessoas. Manuel Bandeira e Mário de Andrade, por exemplo, foram alguns dos leitores.
Mas, se os poemas não mostram o Drummond que conhecemos, os comentários que ele escreveu 13 anos depois com certeza mostram. "Nas páginas ímpares, estão os poemas datilografados. Nas pares, os comentários escritos em 1937. Aí há um diálogo interessante entre o Drummond crítico e o Drummond poeta. E o Drummond crítico é definitivamente moderno", diz Secchin.
A editora Globo, por sua vez, lançará "Cyro & Drummond" durante a Flip. O livro reúne 50 anos de correspondência entre Drummond e o escritor Cyro dos Anjos. Nas cartas, os autores comentam, com franqueza, seus próprios escritos e as obras de outros escritores, como Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos.

Relançamentos

A editora Companhia das Letras aproveita a Flip para colocar nas prateleiras mais quatro livros de Drummond: "As Impurezas do Branco" (1973) e "Sentimento do Mundo" (1940), ambos de poesia; uma antologia poética organizada pelo próprio Drummond em 1962; e "José", que reúne a série de poemas de 1942 e é uma das obras mais famosas do autor.
É um conjunto importante, mas de apenas 12 poemas. Além dos 12 poemas, o volume terá um ensaio feito especialmente pelo poeta Julio Castañon Guimarães.
A leva de quatro livros é a segunda desde que a Companhia das Letras adquiriu os direitos da obra de Drummond. A primeira, em março, teve "Claro Enigma", "A Rosa do Povo", "Contos de Aprendiz" e "Fala, Amendoeira".

CPFL Cultura na Flip – Drummond – 

o poeta presente

Armando Freitas Filho (em vídeo)
Eucanaã Ferraz
Carlito Azevedo
Mediação Flávio Moura
Poucos autores parecem tão importantes para pensar o que se escreve hoje na poesia brasileira quanto Carlos Drummond de Andrade. Não é fácil, no entanto, precisar exatamente em que consiste essa importância e de que maneira ela se manifesta. Três poetas brasileiros exploram diferentes possibilidades de resposta a essa questão. Num depoimento em vídeo gravado por Walter Carvalho, Armando Freitas Filho fala de sua relação com Drummond, partindo de uma definição inesperada do poeta mineiro como um autor do Lado B. A mesa segue com uma discussão entre Eucanaã Ferraz e Carlito Azevedo.
Serviço:
Transmissão ao vivo em www.cpflcultura.com.br/aovivo durante todo o dia. A partir das 14h30 o chat estará liberado para a participação do público online nesta palestra.

José ("E agora, José") - Poema, de Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,

seu terno de vidro, sua incoerência,
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, pra onde?
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Beaufort, de Joseph Cedar

Por Francisco Taunay

Gostei muito da crítica de Francisco Taunay sobre o filme Beaufort, que me deu vontade de assisti-lo. Veja só:

Um filme de guerra completamente diferente de todos os outros. Beaufort não é somente a crônica de uma derrota, mas um jogo psicológico onde se luta contra um inimigo invisível. Baseado na retirada das tropas israelenses do Líbano, o filme mostra os últimos dias de alguns soldados aquartelados em um forte, situado no monte mais alto do país, de cerca de 700 metros. A história do castelo de Beaufort remete há mais de mil anos, quando foi construído pelos árabes. Conquistado pelo cavaleiro cruzado Fulque de Jerusalém, em 1139, ele foi sempre alvo de disputa das guerras religiosas, sendo retomado por árabes e cristãos sucessivamente.
É este cenário histórico importante, repleto de fantasmas, o protagonista do filme: o espectador só vê o que há dentro das fortificações israelenses e, no máximo, o ponto alto do forte, no pico da montanha, alvo dos foguetes do Hezbollah. O exército de Israel abandonou o Líbano em 2000, após anos de um sanguinário conflito, em uma derrota que é analisada no filme.
Beaufort traça os últimos dias da ocupação, onde os soldados são alvo fácil dos foguetes inimigos. Tal como peças de um jogo de xadrez, que vão sendo eliminadas do tabuleiro, eles são ceifados, um a um, em uma guerra que já se sabe perdida. O fato de escutarmos as explosões, e vermos o fogo dos morteiros, dá o indício sobre o inimigo, jamais visto, o que torna o filme um filme de guerra único, repleto de tensão psicológica.
A sensação de claustrofobia, além da beleza encontrada na produção dos afetos, contribuem para um questionamento potente sobre a própria guerra, e sobre como devemos cuidar daqueles que nos são próximos. É notável a forma como o diretor (vencedor do Urso de Prata em Berlim), manipula a tensão do ambiente, em um constante crescente, que chega ao clímax ao final do filme, de forma brilhante.
É um cinema que se baseia nos atores, interpretando soldados descrentes de tudo, que diante do desespero, desenvolvem uma relação de amor e ódio com o lugar. O ator principal, Oshri Cohen, no papel do impetuoso tenente Liraz, desenvolve bem o personagem, esmagado pela impossibilidade de reagir, frente a uma situação cruciante. O público percebe, a cada soldado que morre, como cada um de nós é, para além de um número, um mundo de possibilidades, que é destruído pela guerra.
É interessante pensar como, ao realizar um filme que só mostra vestígios do inimigo, Joseph Cedar simplesmente apaga a possibilidade do outro. O que é melhor, mostrar o outro, o inimigo, o estrangeiro, repleto de maldade e clichês, como nos filmes de Hollywood, ou simplesmente apagá-lo, como uma ameaça invisível? Independente desta questão política, a história é muito bem fabricada, mostrando como a proximidade da guerra pode fomentar a produção de bons filmes desse gênero.
Ao que parece, hoje em dia, são mais importantes as batalhas que se travam no próprio teatro da memória, do que aquelas reais, onde se produzem sangue, explosões e mortes. A possibilidade de narrar um conflito dá a ele uma nova dimensão, repleta da visão de mundo daqueles que fabricam as imagens. Em uma sociedade complexa, onde o controle é absolutamente sutil, a interpretação é muitas vezes mais significativa do que a própria ação. 

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